Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 153

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Maria Ioneida de Lima Braga Capanema/PA Tempo de Sabedoria A tarde estava fresca e ensolarada. Um vento rasteiro de vez em quando varria as folhas das árvores e chegava a varanda, onde eu desfrutava da companhia de meu pai. Meu velho em sua cadeira de balanço mantinha o olhar no horizonte, como se de lá viesse a certeza do triunfo de que entendera o coração alheio. Ele já atingia acima de seus oitenta anos, e eu no limiar da terceira idade. O silêncio que alcançou o virar da tarde foi quebrado de repente. Meu pai começou entusiasmado feito menino na escola em seu primeiro recital. — A vida começa em páginas em branco e o tempo é quem vai escrevendo. Destarte para tudo há tempo e não idade, e isso não é privilégio da mocidade. A juventude passa e a velhice é inexorável. Ser idoso é ter sim, risos escassos, corpo curvado, passos lentos, todavia, cada ruga que vai chegando anuncia o caminho dos sonhos já percorrido. Meu pai calou-se. Recostado no espaldar da cadeira, fechou os olhos, e permaneceu em silêncio. Recomeçou com voz rouca, como se soluçasse. — A velhice é semelhante ao vento. Ninguém o ver, nem sabemos onde começa, mas ele passa e sacode os ramos das árvores. Assim também não percebemos o declinar dos anos, apenas aceitamos. Quão maravilhosa é a sabedoria trazida do ontem, e como é bom ver o sonho realizado em cada ínfimo instante. Meu filho envelhecer é admitir a finitude. O corpo com o tempo declina, [150]