LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Maria Ioneida de Lima Braga
Capanema/PA
Tempo de Sabedoria
A tarde estava fresca e ensolarada. Um vento rasteiro de vez em quando
varria as folhas das árvores e chegava a varanda, onde eu desfrutava da
companhia de meu pai. Meu velho em sua cadeira de balanço mantinha o olhar
no horizonte, como se de lá viesse a certeza do triunfo de que entendera o
coração alheio. Ele já atingia acima de seus oitenta anos, e eu no limiar da
terceira idade. O silêncio que alcançou o virar da tarde foi quebrado de repente.
Meu pai começou entusiasmado feito menino na escola em seu primeiro recital.
— A vida começa em páginas em branco e o tempo é quem vai escrevendo.
Destarte para tudo há tempo e não idade, e isso não é privilégio da mocidade. A
juventude passa e a velhice é inexorável. Ser idoso é ter sim, risos escassos,
corpo curvado, passos lentos, todavia, cada ruga que vai chegando anuncia o
caminho dos sonhos já percorrido.
Meu pai calou-se. Recostado no espaldar da cadeira, fechou os olhos, e
permaneceu em silêncio. Recomeçou com voz rouca, como se soluçasse.
— A velhice é semelhante ao vento. Ninguém o ver, nem sabemos onde
começa, mas ele passa e sacode os ramos das árvores. Assim também não
percebemos o declinar dos anos, apenas aceitamos. Quão maravilhosa é a
sabedoria trazida do ontem, e como é bom ver o sonho realizado em cada ínfimo
instante. Meu filho envelhecer é admitir a finitude. O corpo com o tempo declina,
[150]