LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
cadeira ornamentada que ficava afastada do centro do salão. Ao seu lado, havia
um rapaz também vestido de branco que constantemente lhe oferecia uma cuia.
Quando ele aceitava, o rapaz a encostava em sua boca.
Leocádia suspeitou de que ali houvesse alguma bebida interessante e
imediatamente sentiu vontade de tomar uma cerveja, o que estava totalmente de
acordo com sua personalidade porque o álcool a deixava ainda mais alegre e
amável. Deixou a casa por alguns minutos para comprar uma lata no vendedor
ambulante que estava com um isopor a poucos metros da entrada. Satisfeita, a
moça voltou devagar curtindo a bebida gelada e a alegre música que agora
alcançava o exterior da casa. Quem a visse andando, dançante e sorridente,
perceberia que ela estava verdadeiramente feliz.
Ao retornar, lata em uma mão e copo descartável na outra, foi logo
interceptada pelo mesmo homem de branco que a havia impedido de fumar,
dessa vez num tom um pouco mais ríspido:
— A senhora NÃO pode beber aqui dentro.
— Ué, mas por que eu não posso beber se tem gente bebendo? Vai me dizer
que tem guaraná naquela cuia?
— Quem está bebendo é a entidade, ninguém mais pode. Tem que respeitar
a entidade!
Mesmo sentindo um leve torpor por causa do álcool que bateu com força no
estômago vazio, Leocádia lembrou de que se saíra bem da última vez e
respondeu:
— Moço, eu não conheço essa entidade, mas já que o senhor está falando,
eu acredito! E jogou a lata quase vazia numa bacia próxima que fazia vezes de
lixeira.
As danças ganharam ritmo mais acelerado e mulheres rodopiavam pelo
salão. O cansaço, a fome e o álcool começaram a surtir efeitos e Leocádia sentiu
uma leve tontura. O amigo ainda estava sentado na cadeira, agora com as mãos
na cabeça de uma mulher que chorava. Parecia fazer algo muito importante que
não podia ser interrompido. Por isso ela até pensou em chamar um táxi para
voltar pra casa sozinha, mas sair sem avisar ao acompanhante não era atitude
condizente com sua educação e gentileza. Leocádia era uma pessoa polida. Só
lhe restava esperar.
Até que percebeu um cantinho na penumbra onde não havia móveis, nem
pessoas, apenas algumas velas e flores no chão.
Leocádia decidiu que
descansaria ali mesmo já que não iria para casa tão cedo. Além do mais, não
incomodaria ninguém se ficasse bem encolhida sobre um pequeno tablado que
parecia estar esperando que lhe dessem alguma utilidade. Quando as pessoas
começassem a ir embora ela acordaria espontaneamente ou, na pior das
hipóteses, seria acordada por alguém. Não pensou duas vezes e para lá se
dirigiu.
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