LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Leocádia até hoje não sabe o que foi que chamou a atenção do Homem de
Branco, mas o cochilo não chegou ao primeiro ronco quando foi acordada
abruptamente. Ele a sacudia pelos ombros e gritava tentando expulsá-la dali.
Ainda tonta pelo rompante, notou que dança e música haviam cessado e as
pessoas mais próximas estavam olhando para ela com nítido ar de reprovação.
— Saia daí agora, sua maluca! — o tom do homem beirava o desespero.
— Mas o que foi que eu fiz dessa vez? Só tava sentada no canto e…
— Você tá deitada em cima de Oxóssi! — a raiva que estava entalada na
garganta do Homem de Branco finalmente foi libertada.
— Como assim, cadê esse tal de Oxóssi? — enquanto se levantava meio aos
trancos, Leocádia tentava entender o que estava acontecendo.
— Saia rápido daí e pare de pisar em Oxóssi!
Impaciente, ele a puxou pelo braço para que descesse o degrau e a levou em
direção à saída. Leocádia finalmente entendeu que já era hora de ir embora
mesmo que fosse sozinha. Seu amigo ainda estava sentado na cadeira, fumando
um charuto, com o rapaz o rodeando. Parecia assistir a toda a confusão armada
por sua convidada, mas sua consciência não estava ali por completo.
Menos por estar sendo expulsa, e mais porque entendeu que havia sido um
estorvo para os presentes encarnados e os desencarnados, Leocádia ainda tentou
largar uma última manifestação de respeito e admiração, do fundo da sua
simplicidade:
— Olha aqui, moço, eu já disse que não conheço essas entidades que o
senhor tanto fala, mas se o senhor está dizendo, eu juro que acredito!!!
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