Revista LiteraLivre 19ª edição | Página 121

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Leocádia até hoje não sabe o que foi que chamou a atenção do Homem de Branco, mas o cochilo não chegou ao primeiro ronco quando foi acordada abruptamente. Ele a sacudia pelos ombros e gritava tentando expulsá-la dali. Ainda tonta pelo rompante, notou que dança e música haviam cessado e as pessoas mais próximas estavam olhando para ela com nítido ar de reprovação. — Saia daí agora, sua maluca! — o tom do homem beirava o desespero. — Mas o que foi que eu fiz dessa vez? Só tava sentada no canto e… — Você tá deitada em cima de Oxóssi! — a raiva que estava entalada na garganta do Homem de Branco finalmente foi libertada. — Como assim, cadê esse tal de Oxóssi? — enquanto se levantava meio aos trancos, Leocádia tentava entender o que estava acontecendo. — Saia rápido daí e pare de pisar em Oxóssi! Impaciente, ele a puxou pelo braço para que descesse o degrau e a levou em direção à saída. Leocádia finalmente entendeu que já era hora de ir embora mesmo que fosse sozinha. Seu amigo ainda estava sentado na cadeira, fumando um charuto, com o rapaz o rodeando. Parecia assistir a toda a confusão armada por sua convidada, mas sua consciência não estava ali por completo. Menos por estar sendo expulsa, e mais porque entendeu que havia sido um estorvo para os presentes encarnados e os desencarnados, Leocádia ainda tentou largar uma última manifestação de respeito e admiração, do fundo da sua simplicidade: — Olha aqui, moço, eu já disse que não conheço essas entidades que o senhor tanto fala, mas se o senhor está dizendo, eu juro que acredito!!! https://www.instagram.com/kissila_muzy/ https://www.facebook.com/kissila.muzy [118]