LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Kíssila Muzy
Nova Friburgo/RJ
Leocádia
Leocádia é uma moça do bem, no sentido mais fácil da expressão. Porque
ajuda as pessoas, aceita as diferenças, tem sempre uma palavra de carinho e um
elogio para o outro, desapega-se de suas coisas quando alguém precisa mais.
Um dia um amigo a convidou para ir a uma importante cerimônia de sua
religião. Foi uma surpresa e ela teve que se arrumar correndo pra sair com ele,
tanto que nem teve tempo para se alimentar. Mas o desconforto valeria a pena
porque o amigo disse que estava preocupado com o sucesso do evento e gostaria
muito da alegre companhia da Leocádia. Ela não sabia o que iria encontrar
porque nunca havia participado de qualquer ato de fé que não fosse o seu próprio
sistema de crenças, o que não seria um problema porque ela é do tipo que gosta
de estar em qualquer lugar onde pessoas estejam reunidas com bons propósitos.
Leocádia é gente boa.
Ao chegarem ao local, o amigo logo tratou de sumir das vistas da Leocádia
porque havia alguns detalhes ainda pendentes sob sua responsabilidade. Então
ela resolveu circular por entre as pessoas e ficou encantada com o cenário:
flores, velas, muitas fitas coloridas, vestimentas e adereços que eram exóticos
aos seus olhos, belas canções ritmadas com tambores. Estava tão feliz que
resolveu fumar, já que toda a bondade em seu coração era destinada mais aos
outros do que a si mesma, e também porque havia outras pessoas fumando no
local.
Tranquilamente, Leocádia acendeu um cigarro e postou-se próxima ao lugar
onde estava a maior concentração de incensos para dar aquela disfarçada e não
incomodar os outros com a sua fumaça. Até que um homem todo vestido de
branco aproximou-se e disse que ela não podia fumar lá dentro.
— Mas tem um monte de gente fumando!
— Não são as pessoas, são as entidades!! — O tom do homem não deixava
dúvidas de que ela teria que apagar o cigarro ou terminá-lo na rua.
Para não contrariar o sujeito que parecia ter uma função importante na casa,
apagou o cigarro. Naquele momento achou que ir para a rua fumar seria uma
indelicadeza maior e por isso respondeu tentando demonstrar respeitoso
acatamento.
— Bom, eu não conheço essas entidades, mas se o senhor tá dizendo eu
acredito.
Mais uns quarenta minutos se passaram e o amigo não havia aparecido
quando Leocádia decidiu procurá-lo. Estava ficando cansada e queria saber que
hora acabaria a celebração quando o avistou, todo de branco, sentado em uma
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