Revista LiteraLivre 19ª edição | Seite 111

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 vezes, elas apareciam aos borbotões e até os atacavam. Certo dia, Mãe e Ocê tocaram fogo naquilo tudo e a fumaça subiu bem alto. Pai partira em caçada, decerto seria atraído pela luz e em breve estaria de volta. Mas Pai não chegava, não chegava. Depois de esperar por vários dias, Mãe e Ocê saíram para longe. Choravam. Ele seguia à frente, arrastando uma placa de metal em que amarrou suprimentos e a tenda. Depois de andar bastante, montaram acampamento. Numa tarde, Mãe deu de cantarolar. Derramou água numa vasilha, elevou-a na direção do Sol e pousou-a no chão. Ao anoitecer, mostrou-a para a Lua. A seguir, à luz da fogueira, ela despiu a própria tanga e fez sinal para Ocê fazer o mesmo. Sorrindo, mergulhou um trapo na água, lavou a pele dele. De novo molhou o trapo e o entregou ao jovem, conduzindo a mão dele por seu corpo. Livres da poeira, exalavam agradável perfume. De repente, com rápido movimento das pernas, Mãe exibiu para ele as partes que só mostrava para Pai. Apalparam-se, esfregaram-se. Ocê entrou no lugar de onde todos vêm. A seiva jovem encharcou o corpo de Mãe, durante dias e noites. A luz da Lua Cheia banha o ventre de Mãe. Está crescendo. Agora, ao se dirigirem um ao outro, usam a mesma palavra: “Amor”. Certa noite, sobrevém gigantesca tempestade de areia. Trovões, escuridão total, raios demolem prédios próximos. Protegidos na tenda, Ocê e Mãe se abraçam. Um raio cai ao lado da barraca. Mãe se assusta e entra em trabalho de parto. As dores vão e voltam, sem resultado. Ao amanhecer, Mãe se acalma. Ocê alisa a barriga volumosa dela, está dura como parede. De repente, ela fica imóvel, parou de respirar. “Amor, Amor!”, grita Ocê, entorpecido. Horas depois, abre uma cova no chão, nela deposita aquele corpo querido, com a criança dentro, cobrindo-o com areia. Após caminhar sem rumo durante várias luas, chega a uma colina arredondada. Já é tarde, amanhã, subirá nela. Adormece. É visitado por Mãe, com seu sorriso severo, seus peitos, o gosto dos sucos dela, os beijos e sussurros dos dois. “Amor”, ela o chama. Ocê acorda, sorri. Está lambuzado. “Amor”, ele sussurra, chama e corre em volta. Ninguém. [108]