Revista LiteraLivre 19ª edição | Página 110

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Jorge Claudio Ribeiro São Paulo/SP Nem um zumbido Bem antes de ele nascer, a tragédia já se abatera sobre o mundo. Paulatinamente, densa névoa – fedida e grudenta – cobriu a Terra, matando algumas operárias, rainhas e zangões em algumas localidades; a seguir, morreram várias colmeias em várias localidades; depois, muitas colmeias em muitas localidades; enfim, todas as colmeias em todo o planeta. Milhares, milhões, bilhões, trilhões. Acabou. Sem ter quem as penetrasse, as plantas não produziram flores, frutos ou sementes – secaram todas. Aos magotes, os animais, incluindo a quase totalidade dos humanos, morreram de fome e doença. Isso está registrado em pinturas inacabadas nas paredes das ruínas. Ele não presenciou esse apocalipse e, portanto, o ambiente em que vive lhe parece natural. Ultimamente passou a perambular sozinho pelo deserto silencioso. As palavras voaram de vez, depois que Mãe se calou; Pai já desaparecera – esses eram os nomes que os dois davam um ao outro e que ele aprendera a lhes atribuir. Ambos o chamavam de “Ocê”. Agora Ocê garante sua sobrevivência com auxílio de duas ferramentas, que carrega num embornal. Com a primeira, pontiaguda, abre caixas de metal de onde extrai alimentos. A outra ferramenta, que se encontra em toda parte, é um pequeno cilindro transparente. Dentro dele há um líquido, na ponta, uma rodinha de metal: ao girá-la com o polegar, surge uma chama. Seu sexo. Parecido com o de Pai, diferente do de Mãe, dava para ver. Com frequência, os dois tiravam a tanga, se abraçavam, gemiam. Desde menino, Ocê acompanhava Pai nas excursões, que ele chamava de “caçadas”. Traziam latas que Mãe abria. Nos acampamentos, eles atiravam num grande buraco aberto no chão os recipientes usados, os alimentos ruins de comer, as garrafas d’água vazias e os dejetos de cada um. Cobriam aquilo com areia para o mau cheiro não ficar insuportável e não atrair os únicos bichos que sobreviveram: as baratas. Às [107]