LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
os cofres. O tesouro escondido no fundo do mar. Logo ali onde ele nadava por
trás da arrebentação para ver o Cristo Redentor, talvez aguardasse pela
redenção. Não sabia nada direito, não sabia de nada. Os prédios altos
embarreirando as ondas em ressaca, os prédios altos vomitando gente e restos
de comida para que restos de pessoas catassem lá embaixo nas calçadas e nos
calçadões um bocado de feijão com arroz. Oh, meu Deus, por que tanto asfalto,
por que tanta prepotência. As mulheres passeavam com seus chapéus e seus
vestidos rodados, as moças agora passando em frente ao velho nem lhe dizem
oi, nem lhe fazem um aceno, nem sabem que dali, daquele banco de cimento, ele
já pulou do velho trampolim do Palace onde a corte desfilava com suas coroas e
na rua de Copacabana os reis sem cetro e sem trono, as rainhas sem tiaras de
ouro com seus dentes cariados, os condes, as armas e os varões assinalados,
estendiam a mão por uma migalha, vendendo suas bugigangas, suas tralhas,
seus uísques falsificados, seus amores, seus baseados surrados, suas histórias
mentirosas, mas fáceis de acreditar. Sempre fora fácil, tudo era fácil. As gaivotas
planando sob o sol escaldante, os morros cinzas e os telhados de zinco, as
janelas escancaradas nos palacetes rasteiros ou nas casas de tabique dentro dos
casarões decadentes, cinemas com seus filmes estrangeiros ditando modas
estranhas e como era estranho ser pequeno em Copacabana, onde tudo era
gigante e desproporcional. Seus violões, suas músicas, suas musas, seus discos
voadores, e o velho sentado no banco de cimento.
As moças passando.
Os rapazes passando.
E a vida lá atrás
Passando...
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