Revista LiteraLivre 19ª edição | Página 108

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Joedyr Bellas São Gonçalo/RJ “Ai de mim Copacabana” O velho sentado no banco de cimento. Olha para o oco do seu coração e vê o nada em todas as possibilidades de ser nada. O vazio. O caos. Do caos o mundo vai se formando. Um mundo novo, que ele deixou de conhecer há muito tempo. Do tempo que ele caminhava nas areias de Copacabana apenas fragmentos. A galeria Alasca. Suas meninas travestidas de meninos, seus meninos travestidos de meninas. Tudo lhe era muito estranho sendo carregado pelas mãos da mãe. Me solta. Talvez falasse ele em um desejo infantil, quase desespero de criança querendo entender aqueles arranha-céus, aquele comércio escuso, os sexos se misturando aos grãos brancos e granulados de Babilônia à espera do Nabucodonosor, de um Nabuco qualquer, que os pivetes carregavam um trabuco por dentro da sunga pronto para atirar. A fome dos pivetes. Copacabana em mil fragmentos, em pedaços estilhaçados numa memória que já não consegue caminhar longe com tanta nitidez, mas vai caminhando, e percebe que Roma acabou em chamas na mão de um maluco. Os Neros, nos doidos carnavais, nos doidos de hospício do asfalto fervente, o Pinel abrindo suas portas e o desfile sempre começava no Leblom ou Ipanema, com suas bandas ensandecidas. Tamancos, loucos tamancos, anões desesperados, mambembes desfiles de artistas incompreendidos, não conhecidos, não estampados nos cartazes de néons, não era o tempo do néon, do brilho nos letreiros de lojas querendo tudo vender. Vendia-se até amor. Ali o velho pensara que comprara a felicidade em casamentos fugazes, passageiros, nada de eterno, nada de eternidade, era tudo ilusão, tudo ilusório, até as calças de outros velhos presas pelos seus suspensórios lhe passavam algo de falso, de mentiroso. Nada era eterno em Copacabana, nem em Icaraí, no Leblon começava o estardalhaço, o zum-zum-zum. Um mergulho nas águas límpidas de Copacabana, vendo os piratas navegando seus navios, suas galeras, seus iates, suas canoas. Os baús e [105]