LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Ocê começa a escalar o monte. Só na hora do crepúsculo chega ao cume.
Acima, grupos de estrelas têm formato parecido com a trilha úmida que Amor lhe
mostrava. Amanhece, Ocê circula pelo topo do morro. Lá embaixo, a sua frente,
estende-se uma fenda no chão, profunda e alongada. Desce a encosta
rapidamente. Caminha por uma margem da fenda, passa as mãos por plantas
desconhecidas que sobem do fundo. No final do dia, exausto, adormece. Ao
acordar, contempla a fenda inteira e a colina arredondada, adiante, que lhe
lembram o corpo de Amor. Suspira. Olhos e rosto úmidos. Dói demais. Ocê toma
distância e se atira no precipício.
Os arbustos e árvores da encosta amortecem sua queda e o depositam
gentilmente no solo do fundo. Os cabelos e pelos de Ocê ficaram cobertos de
sementes. Numa cacimba entre as pedras, brinca na água fresca e a bebe até se
fartar. Cheira as flores perfumadas que polvilham seu rosto e, sem perceber, ele
deposita o pólen em outras flores. Seus passos despertam insetos adormecidos
nas entranhas da terra. Em breve o ar se enche de zumbidos. Passa o dia
zanzando. Anoitece.
Ocê desperta cantarolando. Sensação de vitalidade, não tem mais desejo
de morrer. Banha-se na cacimba. A seguir, sobe a encosta. Durante o trajeto, a
vegetação acaricia seu corpo nu, assim como Amor fazia. Recorda-se dela, sorri.
Lá em cima, Ocê olha a paisagem em torno. “Eu vou morar aqui”, fala alto.
Enquanto dá gargalhadas e cambalhotas pelo deserto, as sementes se soltam de
sua pele, penetram no chão e logo começam a germinar. Plantas brotarão.
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