Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 104

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Ouvido isto, todo o grupo de cerca de cinquenta pessoas começou a murmurar e a abanar a cabeça, reprovando a atitude da defunta. — Já lhe dissemos que não pode ser — respondeu o mais alto, que era cordoeiro, imponente na sua vestimenta carmesim. — O cemitério velho esgotou a capacidade com os mortos de há dois anos. Não cabe lá mais ninguém. Tem de ficar neste novo. — Não quero saber — insistia a morta —, onde cabem cem cabem duzentos. Metam-me numa sepultura antiga, onde já só haja ossos. — Não há! — irritava-se agora o outro oficial. — A revolução de 1848 aumentou tragicamente o fluxo normal de mortos. Todas as campas possíveis foram utilizadas. E esses mortos ainda não estão em condições de levantar. — Sei bem o que fizeste, safado! — contra-atacava a falecida. — Deixaste sepultar lá gente de outras terras, a troco de uns quantos “napoleões”. — Estou farto disto! — esbravejou o visado. — Ou que estamos a guardar as campas para os amigos, ou que só as damos a quem paga bem; agora são os mortos de outras terras. Eu vou-me embora. E, dito isto, retirou-se em grandes passadas. Pouco depois, era a vez do segundo oficial abandonar o cemitério, após Dona Clarisse sugerir que ele exercia estas funções por favorecimento do padre. Este dirigiu-se então à finada com palavras que denunciavam já uma irritação mais própria de um homem dominado pelas emoções primárias do ser humano do que pela sábia serenidade de um intermediário do sagrado. — Ó, Dona Clarisse, eu não lhe admito isso! A senhora não pense que pode dizer o que lhe apetece, só porque está morta. Vamos lá esclarecer uma coisa: nós não vamos ficar aqui a tarde toda a discutir os pequenos caprichos da senhora. Daqui a pouco é noite e, se não se decide depressa, fica aqui mesmo, tal e qual, de tampa aberta. Pode ser que os lobos cá venham fazer-lhe companhia... Agora, escolha! — Você não pense que me assusta, com esse palavreado, seu badameco, que eu de si não tenho medo! — redarguiu Dona Clarisse, de voz alterada. — Você é que tem com que se preocupar, se não me levar já para o cemitério velho. Ou pensa que eu não sei as propostas que fez à minha sobrinha mais nova? Agora é que o povo todo vai ficar a saber a quem se tem andado a confessar! Estas palavras foram de mais para o pároco de Ornans. As suas mãos largaram o breviário e lançaram-se ao pescoço de Dona Clarisse, numa tentativa vã de estrangular uma morta. O gesto tresloucado foi rapidamente travado por alguns dos presentes, nomeadamente o regedor de Ornans e dois assumidos [101]