LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Joaquim Bispo
Odivelas, Portugal
Um enterro em Ornans
O séquito aproximava-se do cemitério encabeçado por duas filas de
homens. Enquadravam a carreta, precedida por um sacristão que segurava a
longa haste de uma cruz processional. Logo atrás, em passo arrastado, seguia o
padre, envolvido pelos restantes sacristães em suas opas brancas. A fechar o
cortejo, a massa escura das mulheres. Do ruído surdo de tantos passos e de um
leve gemido dos rodados, sobressaía o toque de finados na torre da aldeia, que
ficara para trás. Vistos de fora, parecia que caminhavam há horas, mas sem
saírem do mesmo sítio. Esse arrastamento do tempo causava um certo
desconforto num insuspeito espectador. Apetecia que terminassem logo aquilo a
que se propunham: enterrar a Dona Clarisse de oitenta e dois anos.
Finalmente, chegaram aos portões do cemitério. Os portadores retiraram o
caixão e começaram a transportá-lo, com a ajuda de faixas de pano que fizeram
passar por baixo do féretro e que seguravam sobre os próprios ombros. Agora, o
grupo deslocava-se por entre algumas poucas sepulturas em direção a um monte
de terra escavada de fresco, onde se encontrava o coveiro em atitude
expectante, acompanhado do seu cão. Aí chegados, puderam perceber o vazio da
cova, que seria a última morada da defunta. O oficiante aproximou-se, fez uma
pausa, a dar tempo aos acompanhantes de se arrumarem em volta da tumba, e
começou a ler os trechos litúrgicos adequados ao ato fúnebre.
Então, ouviu-se um longo gemido abafado. O padre parou a leitura, os
sacristães entreolharam-se, os portadores que tinham pousado a carga
esboçaram um trejeito de desagrado, enquanto os restantes presentes olhavam
para o ataúde sem mostrar o mínimo movimento de surpresa. A um gesto do
padre, os dois funcionários laicos da igreja levantaram a tampa do caixão e um
deles perguntou, impaciente:
— O que foi, agora?
Vista de fora, a situação suscitava grande perplexidade. Estendida no seu
leito de morte, Dona Clarisse, de olhos fechados e tez lívida, respondeu num
longo e lúgubre lamento:
— Eu não quero ser enterrada neste cemitério. Quero ficar em Ornans ao
pé dos meus pais, do meu filho Jean, e das minhas amigas. Neste meio do nada,
não conheço ninguém.
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