Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 102

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Jeremias Comaru Fortaleza/CE Eu não matei Matheus Como escritor, sou um pouco exigente. Gosto de conhecer, pessoalmente, as personagens principais, sobretudo porque sempre as imagino mulheres lindas, carinhosas e quentes. Porém, levado por certa embriaguez literária, quase cometi um deslize irreparável! Raphaela, às vésperas de seu casamento com o tal do Matheus, sofreria um grande revés. Eu até tinha me afeiçoado ao rapaz, mas resolvi matar aquele inútil, que enfadava o leitor. Antevi que a trama precisava de uma sacudida, pois ninguém suportava o almofadinha, perfeitinho e hipócrita que criei. Foi de um capítulo para o outro que resolvi criar uma situação extrema que o levaria a óbito rapidamente. Matheus, coitado, chegou até a assinar seu testamento vital, ciente que as máquinas seriam desligadas quando já não houvesse qualquer chance de sobrevivência. A ortotanásia, explico aos leitores, diferentemente da eutanásia, não é uma espécie de suicídio legalizado, mas sim uma autorização para que deixem morrer quem estiver desenganado, irrecuperável. E isso foi explicado ao Matheus , que tremeu, mas assinou. Pobre escravo da literatura. Não lhe dei chance. Assinou. Raphaela, que recebeu a ligação do hospital após a assinatura da “sentença de morte” do noivo, correu para despedida a la mexicana. Pensei no tipo de narrador que me tornei. Quase voltei atrás. Mas tenho palavra. Matheus precisava morrer. Como escritor, também fico um pouco apegado às personagens, sobretudo mulheres lindas como Raphaela. Confesso que fiquei com o coração partido ao vê-la chorar. A escrita não pode ser tão próxima ao escritor. Isso pode ser perigoso. Dramático. Confundir ficção com realidade costuma produzir certa loucura. Então, não aconselho. Existem alguns gênios que conseguem ir e voltar por esse caminho. Eu, no entanto, prefiro não arriscar. Com isso, caro leitor, armei uma saída estratégica para a situação. Raphaela chegou ao hospital e derramou um rio de lágrimas como um bálsamo curador sobre o noivo moribundo. Nem precisava, não é? Mas, não foi isso que o salvou. As máquinas desligaram por falta de energia. Não valeu. Parei. Fiquei chateado e desliguei o computador, após salvar o texto. Com isso salvaram-se dois: o texto e Matheus. Fiquei aliviado até começar a ouvir vozes do além: - Vai dormir, Matheus – reclamou Raphaela na escuridão - Agora que faltou luz, vê se lembra que tem mulher. jeremiascomaru@gmail.com [99]