LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
partidários da I República, o que não impediu que a touca negra da defunta, na
confusão, lhe fosse arrancada da cabeça.
Vista de fora, a cena era deveras confrangedora. Qualquer cidadão normal
se sentiria angustiado com o desrespeito pelos mortos manifestado por aquela
assembleia, e pelo comportamento inesperado e impertinente de um deles.
Terá sido esse desaforo social que fez Gustave Courbet acordar em
sobressalto. Envolto pelo escuro do seu quarto de Ornans, mantinha vívidas na
retina as imagens violentas a que acabara de assistir. Temeu pela sua obra mais
recente — aquela que lhe tinha levado três meses a realizar em condições
difíceis. Pintara cinquenta pessoas da aldeia, uma a uma, no espaço esconso do
sótão, numa enorme tela de três por mais de seis metros, como memória do
funeral da sua velha tia Clarisse.
Em grande agitação, acendeu uma lanterna e subiu ao sótão. Os cinquenta
aldeãos aguardavam-no, solenes e calmos, no seu ritual fúnebre: os portadores,
segurando o caixão, os sacristães, os funcionários laicos, o padre, o coveiro, os
vários homens de aspeto grave, o grande grupo das mulheres de escuro e coifas
brancas. Tudo estava no seu lugar, como seria de esperar no mundo real. Mesmo
o cão do coveiro mantinha um ar curioso por tão grande ajuntamento. Eram
assim os enterros em Ornans. Afinal, fora apenas um sonho, bizarro como todos
os sonhos.
Deixou-se envolver por uma reconfortante sensação de alívio. A inquietação
de há pouco deu lugar a um consolador relaxamento. Então, reparou no padre: a
sua mão direita agarrava ainda a touca amarfanhada da velha tia Clarisse…
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