LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
escolar como um medíocre. Conheci inclusive amiúde o que eram as
recuperações e o carimbo de “Não apto” na média final anual.
Pouco lembro de tudo o que ouvi em sala de aula ou respondi em provas que
nunca provaram e continuam não provando nada. Um exemplo: nunca mais
esqueci o nome das três pirâmides do Egito: “Quéops, Quéfren e Miquerinos”.
Como pode nomes tão feios saírem de lábios tão lindos como os daquela
inesquecível professora de história? Foi o que pensei na hora e nunca mais
esqueci, tamanho o choque que me acometeu.
Recordar este evento só não é mais agradável porque me faz lembrar um
terrível sentimento de culpa certa vez que olhava para ela embasbacado e
Marisa, a colega do lado, interrompeu meus devaneios para perguntar se eu tinha
uma caneta para emprestar. Respondi aborrecido e com a voz um tanto alterada:
não!
Com raiva por ela ter me interrompido, propus: (em pensamento, claro) se
você me mostrar os peitos te empresto uma caneta! Quando voltei a olhar para a
professora me senti péssimo por tê-la traído, mesmo em pensamento.
Lembranças de uma idade bonita de recordar, mas péssima quando se está lá.
Antes de voltar dessa aventura vespertina por tantas lembranças, resolvi
andar pelas ruas paralelas àquela que chamava de “a minha” e outras no entorno
por onde andava com frequência na juventude. De vez em quando encontrava
fisionomias que me remetiam às cenas daqueles anos, mas muitas, precisava
fazer um certo esforço na lembrança para me certificar de que eram mesmo
aqueles personagens.
Alguns envelheceram mantendo as aparências físicas e os trejeitos de
sempre, outros mudaram consideravelmente. Enquanto caminhava e
cumprimentava aqueles dos quais ia me lembrando, ia também notando o ar de
curiosidade de alguns. É como se dissessem: nossa! Como cresceu! Está um
homem! e outros, ficassem tentando lembrar quem eu era.
Naquela época eu fazia amizades com muita facilidade. Sendo como fui “da
pá virada” atraia para perto de mim moleques como eu, dispostos a transgredir
regras e a “chutar o pau da barraca”.
Nessa hora, em que estava me lembrando deles, fiquei triste porque percebi
que todas as contravenções que cometíamos eram brincadeiras bobas que não
prejudicavam ninguém, a não ser a nós mesmos. Maneiras de ser e de nos
colocar diante da vida que com o tempo, desapareceriam dando lugar a homens
responsáveis e retos, mas alguns não entenderam isso. Lembrei então de cinco
desses amigos:
Um entrou para a polícia militar. Três meses depois, pensou que era um
personagem da série SWAT, da qual era fã e se meteu num morro em São Paulo
de peito aberto com arma em punho para enfrentar traficantes. Morreu ali
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