Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 80

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 mesmo. Outro também entrou para a polícia, mas se envolveu com bandidos e foi preso ainda na academia. Li na página policial de um jornal local da época que conseguiu fugir da cadeia. Nunca mais foi visto. O terceiro morreu em acidente num armazém do porto, onde fora trabalhar e os outros dois viraram, traficante e assaltante sendo um preso e condenado por tráfico e outro por tentar molestar a sobrinha de dez anos. Desses três que sobreviveram, nunca mais tive qualquer notícia. Fiquei pensando, o que me levou a um estado depressivo momentâneo, qual seria o motivo de, daquele grupo de seis, ter sobrado apenas eu para seguir uma “vida normal”? Das duas, uma: ou aquela necessidade inata e sempre perturbadora em mim de saber e conhecer tudo, acabou me colocando num caminho mais aceitável, o dos livros; ou as novenas e os terços da minha mãe, mulher muito religiosa, para o santo das causas impossíveis deram resultado. Quando resolvi ir embora, já no final da tarde, tornei a prestar a atenção naquelas casas antigas, algumas com pessoas idosas e aparentemente cansadas nas portas esperando o tempo passar. Pensei então que seria interessante se cada pedaço de chão no mundo pudesse ter toda a sua história gravada e guardada em algum arquivo ao qual pudéssemos ter acesso. A biografia de cada época, cada construção e cada pessoa que interagiram entre si através dos tempos, num filme ao qual pudéssemos assistir, desde dias imemoriais até hoje, mas à parte esses assomos de memórias fracionadas, de nada mais podemos ter conhecimento, tampouco reviver o que já foi vivido. É como diz a música do Lulu Santos: “Nada do que foi será / De novo do jeito que já foi um dia (...)” [77]