LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
E. R. Neves
Recife/PE
Findar
O céu está nublado há tempos.
Ontem foi dia de chuva.
E hoje é uma tarde fria.
O que isso quer dizer?
Bem, não sei. Só sei que não estou bem.
Sento-me no chão gelado da sala e encaro a pequena janela a minha frente, a
me perguntar "que tempo é esse que me acompanha?".
Muita pretensão minha pensar dessa forma? Talvez sim, talvez não. Não me
importo mais.
O que me incomoda me paralisa, e é por isso que me encontro aqui imóvel, com
as pernas nuas sobre o piso de cerâmica.
Hoje é um dia de caos e confusão, e não sei o que fazer comigo quanto a tudo
isso. Quero correr, gritar, xingar, me libertar... Mas tudo que me prende, me
sufoca, e me sinto vitimada demais para fazer alguma coisa. Talvez esse seja
meu problema. Me vitimizo demais, reclamo demais, choro demais e escrevo
demais, e nada nunca muda. Nunca anda. Nunca se renova.
Vivo naquela inércia do "não sei, talvez..." e isso me tira a alegria do viver.
A verdade é que não me sinto parte de nada.
Não pertenço a lugar nenhum.
Nenhum espaço me contém de verdade.
Sou sempre inundada pela sensação de que nada me contempla, e que morro
dessa forma a cada agora que se passa e me embala para uma nova morte.
Eu vivo a beira de um precipício ameaçando pular, mas não há quem me ouça.
Então, do que adianta avisar?
Só sinto os abraços ao chorar, mas não me encontre em nenhum deles... Talvez,
tenha me encontrado em um, e temo muito abandoná-lo...
Mas, se não for assim, o que será de mim?
Estou cansada de caminhar, seja de sandálias, tênis ou com os pés no chão. Tudo
está sempre a me machucar, não importa o quanto eu tente me defender.
Sinto-me frágil demais, fraca demais, acabada demais...
Eu acho que já é hora de acabar. Mas, ainda assim, não sei o que fazer. Não
tenho coragem de me findar.
@deixemelhecontar
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