Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 76

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 De Moraes Fortaleza/CE Cigarros são Femininos Pôr do sol cinza no ritmo de uma nota Dó. Eduardo acabara de chegar da delegacia, onde exerce o papel de inspetor chefe. Chegando em casa é recebido por Maria, jovem senhora, prendada, cheia de beijos secos e formais. O anúncio solene do jantar não impressiona o marido. Eduardo segue direto para a poltrona. Desdobra o jornal que estava inacabado desde o café da manhã. Maria nem precisava se produzir toda, o marido não notou o vestido vermelho, o preferido, o que só saia do guarda- roupas para ocasiões especiais. A esposa se dispôs a acender os cigarros para o amado. Novamente rejeitada, pois a regra era que o fumo é sempre após as refeições. Eduardo prefere o sabor dos charutos. “Maria, cigarros são tão femininos”. Riram. Maria sentou ao piano, estalou as falanges e arranhou melodias minímas. “Querida, estou lendo o jornal. Depois você continua com suas cirandas”. Parou por um segundo. Depois, prendeu a respiração, contou até três e se dispôs a improvisar um jazz. Eduardo suportou e depois pediu uma caneta para marcar uma nota nos classificados. Suspiros. Maria martelou a nota dó. Não sabia de cor o nome de uma pianista de jazz famosa. Neste mundo imenso, deve existir pelo menos uma… “Querida. Minha caneta”. A mulher foi até o paletó, vasculhou os bolsos e trouxe um pedaço frio de aço inoxidável. “Por favor, Eduardo, não faça todas as palavras cruzadas, deixe umas para mim”. “Ok”. O ambiente de trabalho do marido deveria ser mais interessante. Um departamento burocrático que beirava o caos. Os presos deveriam ser mais felizes. O lar era apenas um lote de moralidade falsa com dois mortos-vivos. O piano foi deixado de lado. Na janela, passava aquela tarde cinza. Maria percorreu os olhos nas paredes da casa. Viu manchas novas, o marrom destacado no meio do enorme amarelo. “Eduardo, vamos jantar”. “Ok”. https://medium.com/@thiagoverissimo2 [73]