LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
preciso rodar muito, não devo pegar nenhuma blitz”, e assim você sai para
almoçar.
No restaurante você coloca o seu prato, arruma como se fosse uma obra de
arte, “o arroz vai aqui, o feijão vai ali, a batata fica aqui e lá vai a carne”, você
pensa. Então chega no balcão de churrasco e pede entusiasmado por uma
picanha sangrando. Você sabe que a carna não está efetivamente sangrando, que
o sangue da vaca nem chegou no açougue, muito menos no seu prato, sabe que
aquele líquido é uma mioglobina e não hemoglobina, mas quem pede uma carne
banhada em mioglobina? Então que se foda, você pede a carne sangrando,
porque, no fundo, você quer a carne sangrando. Mas seu bom humor vai para o
caralho quando o filho da puta do churrasqueiro joga a carne encima do arroz e
da batata, mesmo você apontando para ele onde a carne deveria ir. Na mesa, a
sua mulher, come um belo estrogonofe, e você pensa “se era pra comer isso a
gente poderia ter feito em casa”. Mas não fala lada, porque aquele comentário
desencadearia uma pequena discussão. Os dois comem satisfeitos e você se
felicita e parabeniza pela incrível capacidade de resolver aquele terrível problema
de o que comer no almoço de domingo.
Na volta para casa, parado num sinal de trânsito, você sente pena do garoto
vendendo amendoim. Então se abaixa para procurar umas moedas para comprar
o produto do rapaz. Mas, do nada, acaba. Um caminhão veio com tudo por trás,
não conseguiu frear e, ao tentar desviar dos carros atrás de você, subiu na
mureta e virou em cima do seu carro, esmagando você e sua companheira. E
fim. Simples assim. Você morreu porque um caminheiro estava dirigindo por
mais de quinze horas com o sangue cheio energético. É ilegal, ele sabia, mas que
se foda, um homem precisa ganhar a vida, não é? Você morreu porque comprou
uma TV desnecessariamente, não pagou seus impostos, e teve que comer num
restaurante perto de casa. Você morreu porque queria assistir a Netflix na TV e
não no computador. Você morreu porque a fila do mercado estava longa demais.
Isso não é hilário?
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