LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
olhou os lábios ainda não desfigurados de Maria e deu-lhe um beijo com o sopro
do vento.
Antes de quaisquer raios de ajuda, a menina fechou os olhos e sonhou com o
mar. Nem teve tempo de não se culpar pelo que não era culpada. Restou à Santa
Bárbara verter algumas ondas de alívio naquela praia distante. A menina
regalava-se na areia quente e oi, tudo bem? Gosta de Clarice?
Disseram, sob o sol do dia seguinte, que duas moças foram achadas com os
braços esticados, rubros, a dois palmos de distância. Em volta, marcas de pneus,
mas um anel largado por perto descartava um assalto. Restou a suspeita
esboçada na boca menos desfigurada da menor delas. A culpa recaiu na
felicidade demais, incabível por aqui, que, talvez, só servisse para estrelas do
mar e cavalos marinhos. Jamais saberiam os transeuntes que restaria à Bárbara,
a avó da pequena de cabelos embaraçados agora platinados de vermelho,
entregar as filhas à Santa da qual eram devotas.
E longe, lá nos domingos por entre as ondas, as mãos de duas mulheres
finalmente se tocaram.
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