LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
A alegria sem fim. A avó, sempre a avó, entendendo amores por aí. Saíram
renovadas e Dolores mal sabia que Santa Bárbara tinha outra devota. Maria
rezava para a Santa, pois ansiava por fazer a pergunta, a única que importava.
Há semanas pedia trovoadas de coragem e ela veio como pedaço de bolo de
fubá. Dali para o restaurante eram duas quadras apenas. O anel no bolso da
calça há semanas, a comida favorita de Dolores, o início da noite, moleques
jogando bola na praça em frente com pais desatentos mexendo em suas motos,
o beijo distraído antes de entrar no começo do resto da felicidade e o peito
arfado! Dois mates gelados, entrada, prato principal e um anel de sobremesa. As
tais lágrimas de felicidade e esperança com o futuro batendo à porta. Não eram
mais duas amantes. Eram duas mulheres amadas desejando, juntas,
organizarem livros e joias nas tardes de domingo.
Correram para fora quase sem pagar a conta de tanta animação. Outro beijo
na calçada e mais passos em direção à casa. Iria até ser clichê: Maria pegando
Dolores nos braços e entrando com o pé direito no resto de suas vidas. A soleira
da porta como testemunha dos abraços sem eira nem beira, dados à mercê das
vontades genuínas. Beijos com gosto de café quente e mate gelado para matar a
sede depois. Duas mulheres sabidas já vivendo lá na frente a vida aceita há
minutos. Não estavam felizes. Eram felizes.
Mas Dolores não pressentiu, nem viu. Nem, na sua perfeição de modos,
ouviu o ronco das rodas e o barulho das garrafas de vidro quebrando no chão,
abandonando os moleques no campo da praça.
Ela, tão perfeccionista com livros e sardas, desavisou-se das preces de
Bárbara que, em vão, tentava lhes resguardar. Ignorou, na majestade da alegria
dos sorrisos como noiva, as motos espreitando-as na saída. No esmero do futuro
que se abria pelos lábios de Maria, esqueceu a dureza burra do mundo lá fora.
Saíram felizes e amor demais, dizem, incomoda. O beco escuro. Primeiro, o taco
rachando o crânio de Maria; depois, o murro na boca de Dolores e o bico no
estômago, a costela fraturada, o chão preto do asfalto gelado esquentando de
sangue, Maria longe, vítrea, chutada mais e mais vezes, e Dolores, arqueada,
reparando o gosto ácido e as botas nas costas. Só importava, entretanto, as
dores que vinham da distância, as mãos de Maria que nunca mais tocariam as
suas, e as que vinham do passado, te amarei sempre, meu anjo. Só quero que
sejas felicíssima, mas, por favor, tomem muito cuidado por aí. Amor incomoda,
ainda mais os amores sinceros. Te amo, minhas filhas!
No mundo de vítimas culpadas, Dolores sentia a agonia. O espaço não
encurtado pelo desespero escorrendo no meio fio, o pedido de cuidado que
achava ter ignorado. Perdoa-me, vó. Valei-me, Santa Bárbara! E na escuridão
que cintilava à sua frente, quando os murros e chutes não mais machucavam,
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