Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 67

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Clark Mangabeira Carioca em Cuiabá/MT Do(lo)res Não foi o murro na boca o que mais doeu. Nem o bico no estômago. Deitada, gemendo, a agonia vinha do passado. A dor maior, da distância. Das mãos que não se encontrariam no asfalto duro. Ela, sempre tão perfeccionista a ponto de saber de cor a ordem exata dos livros dispostos na prateleira; sempre tão inclinada a limpar decididamente as joias da avó; ela, tão miúda a ponto de conhecer as sardas e pintas das pernas frágeis, só se descuidava do cabelo, permitindo-se sair da cama e ir trabalhar sem penteá-lo como uma forma de breve anarquia de si mesma. Dolores, no chão, não entendeu, e, ao mesmo tempo, sabia: de fato, provinha da distância a dor, enquanto o ventre rasgado era mero detalhe. Aquela moça não era terra firme. Era poça d´água. Orava todas as noites à Santa Bárbara, implorando mais bravura e relâmpagos na alma. Esboçando sorriso, contudo, resignava-se no fim da prece à miudeza tímida, porém feliz, do corpo que Deus lhe dera. Trabalhava e se divertia com pudor, os cabelos sendo os únicos rebeldes da sua vida equilátera. A voz superlativa da avó, o cuidado estruturado das palavras escolhidas a dedo – daí o perfeccionismo herdado –, ecoavam a todo o instante na sua cabeça, agora quebrada: te amarei sempre, meu anjo. Só quero que sejas felicíssima, mas... Quando Delores enfim descobriu a bravura de Santa Bárbara naquela tarde de verão na praia e, inflada de raios de Iansã, bebeu o resto do mate gelado para conseguir dar um passo em direção à menina de biquini lilás largada na areia lendo Clarice, nem acreditou que estava andando em direção ao destino. Oi, tudo bem? A praia tá boa? Gosta de Clarice? Olá! Maria, meu nome... Prazer... Você é...? Dolores? Lindo nome... Pronto. Trovoadas pela alma e o começo. Duas meninas em suas horas de estrela. Tornaram-se inseparáveis. Festas, cursos, brigas. Tudo. Iam e voltavam, estrelas compartilhando-se perfeitas na felicidade crescente e jamais vazia. Risos, alguns marginais, a maior parte recatada, lágrimas de felicidade e esperança, mãos entrelaçadas quando Dolores, a pedir bençãos à Bárbara, tocou a campainha da avó, pois havia chegado a hora. Vó, essa é minha... Maria, prazer, querida, entre, por favor! Já tem um bolinho de fubá na sala esperando vocês duas! [64]