LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Clark Mangabeira
Carioca em Cuiabá/MT
Do(lo)res
Não foi o murro na boca o que mais doeu.
Nem o bico no estômago.
Deitada, gemendo, a agonia vinha do passado. A dor maior, da distância. Das
mãos que não se encontrariam no asfalto duro. Ela, sempre tão perfeccionista a
ponto de saber de cor a ordem exata dos livros dispostos na prateleira; sempre
tão inclinada a limpar decididamente as joias da avó; ela, tão miúda a ponto de
conhecer as sardas e pintas das pernas frágeis, só se descuidava do cabelo,
permitindo-se sair da cama e ir trabalhar sem penteá-lo como uma forma de
breve anarquia de si mesma. Dolores, no chão, não entendeu, e, ao mesmo
tempo, sabia: de fato, provinha da distância a dor, enquanto o ventre rasgado
era mero detalhe.
Aquela moça não era terra firme. Era poça d´água. Orava todas as noites à
Santa Bárbara, implorando mais bravura e relâmpagos na alma. Esboçando
sorriso, contudo, resignava-se no fim da prece à miudeza tímida, porém feliz, do
corpo que Deus lhe dera. Trabalhava e se divertia com pudor, os cabelos sendo os
únicos rebeldes da sua vida equilátera. A voz superlativa da avó, o cuidado
estruturado das palavras escolhidas a dedo – daí o perfeccionismo herdado –,
ecoavam a todo o instante na sua cabeça, agora quebrada: te amarei sempre,
meu anjo. Só quero que sejas felicíssima, mas...
Quando Delores enfim descobriu a bravura de Santa Bárbara naquela tarde
de verão na praia e, inflada de raios de Iansã, bebeu o resto do mate gelado para
conseguir dar um passo em direção à menina de biquini lilás largada na areia
lendo Clarice, nem acreditou que estava andando em direção ao destino. Oi, tudo
bem? A praia tá boa? Gosta de Clarice? Olá! Maria, meu nome... Prazer... Você
é...? Dolores? Lindo nome... Pronto. Trovoadas pela alma e o começo. Duas
meninas em suas horas de estrela.
Tornaram-se inseparáveis. Festas, cursos, brigas. Tudo. Iam e voltavam,
estrelas compartilhando-se perfeitas na felicidade crescente e jamais vazia.
Risos, alguns marginais, a maior parte recatada, lágrimas de felicidade e
esperança, mãos entrelaçadas quando Dolores, a pedir bençãos à Bárbara, tocou
a campainha da avó, pois havia chegado a hora. Vó, essa é minha... Maria,
prazer, querida, entre, por favor! Já tem um bolinho de fubá na sala esperando
vocês duas!
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