LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
— Herói? Você agora é um herói?
— Sim, eu salvo as pessoas delas mesmas, me alimentando dos sentimentos
ruins que elas possuem.
—O que você está dizendo?
— O amor aprisiona as pessoas, o perdão maltrata, a bondade as limita. Vim
para trazer libertação.
A mãe não sabia o que pensar. Procurava em seus registros e nada
encontrava, a não ser histórias e mais histórias. Era um visionário.
― “Ainda será um grande escritor, isso é só uma mera confusão devido a sua
imaturidade e muita imaginação”- pensava a mãe.
Felipe começara a viver aquilo que escrevia. Cada vez mais absorto em seu
mundo, as histórias passaram a fazer parte de sua vida. Ele era o protagonista;
suas angústias e seus dilemas, associados a sua coragem e vontade de salvar o
mundo do que julgava injusto foram criados pela ânsia de dar vida a um
personagem.
Amava escrever, tanto, que precisou também, viver aquilo que registrava.
Certo dia, vestido com sua capa preta, máscara que realçavam seus olhos
brilhantes, abstratos e ainda, angelicais, tão comuns ultimamente, despediu-se
da mãe, alegando que, terminada a sua missão, ele retornaria para casa.
Em vez de sair pela porta, saiu pela janela. Moravam no quarto andar de um
prédio. Heróis voam, precisava salvar o mundo dos sentimentos que as
aprisionavam. A humanidade precisava evoluir.
Despedira, mas a mãe não compreendera; desenhava, mas a mãe não
entendia. Disse muito, por meio de enigmas. O encanto do seu olhar era abstrato
demais diante da visão ínfima da mãe.
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