Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 66

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 — Herói? Você agora é um herói? — Sim, eu salvo as pessoas delas mesmas, me alimentando dos sentimentos ruins que elas possuem. —O que você está dizendo? — O amor aprisiona as pessoas, o perdão maltrata, a bondade as limita. Vim para trazer libertação. A mãe não sabia o que pensar. Procurava em seus registros e nada encontrava, a não ser histórias e mais histórias. Era um visionário. ― “Ainda será um grande escritor, isso é só uma mera confusão devido a sua imaturidade e muita imaginação”- pensava a mãe. Felipe começara a viver aquilo que escrevia. Cada vez mais absorto em seu mundo, as histórias passaram a fazer parte de sua vida. Ele era o protagonista; suas angústias e seus dilemas, associados a sua coragem e vontade de salvar o mundo do que julgava injusto foram criados pela ânsia de dar vida a um personagem. Amava escrever, tanto, que precisou também, viver aquilo que registrava. Certo dia, vestido com sua capa preta, máscara que realçavam seus olhos brilhantes, abstratos e ainda, angelicais, tão comuns ultimamente, despediu-se da mãe, alegando que, terminada a sua missão, ele retornaria para casa. Em vez de sair pela porta, saiu pela janela. Moravam no quarto andar de um prédio. Heróis voam, precisava salvar o mundo dos sentimentos que as aprisionavam. A humanidade precisava evoluir. Despedira, mas a mãe não compreendera; desenhava, mas a mãe não entendia. Disse muito, por meio de enigmas. O encanto do seu olhar era abstrato demais diante da visão ínfima da mãe. [63]