LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
— Sim, professora, nem tudo aconteceu, de fato, mas escrevi como gostaria
que tivesse sido.
― E você gostaria realmente de colocar pregos no chão do quarto de sua
avó, para que quando seus primos fossem vê-la eles se machucassem?
— Sim, professora, assim eles sairiam de perto e eu teria atenção só pra
mim.
A mãe fora chamada pela professora , em algumas ocasiões .Diziam que
Felipe era comunicativo, fazia amizades com facilidade, mas que ficavam
apreensivos com o teor de suas produções textuais.
-Ele só tem 10 anos, escreve sobre agressões físicas e verbais, histórias
incomuns com finais favoráveis aos vilões. Desenha armas e objetos cortantes.
Está acontecendo algo em sua casa que possa estar influenciando-o?
— As atitudes dele, ao que me parece, não são de desrespeito nem de
agressividade. Vou conversar com ele para ver se há algo de errado.
Em casa, chamara o filho para uma conversa. Olhava-o com firmeza. Tentava
entender o que poderia passar na mente daquela criança.Seu olhar era
encantador e imaculado. Gostaria muito de captar o mais profundo de seu íntimo,
adentrar seus pensamentos, porém, nada mais via além de pureza.
— Felipe, está acontecendo algo com você que eu não saiba?Você sabe que
sua professora me chamou novamente à escola.
— Mãe, eu gosto de escrever, ainda vou escrever um livro!
E o diálogo não prosseguia. Era um menino sonhador, contador de histórias:
“Como colocar limites em sua imaginação? Havia algo de errado em sentir prazer
em escrever coisas incomuns?” – A mãe, aflita, refletia.
Os dias foram se passando, novas histórias surgiam e, juntamente com elas,
algumas atitudes de Felipe foram manifestando-se. Já não sorria, como antes,
nem contava sobre o seu dia para a mãe. Cada vez mais circunspecto, afastava-
se do convívio social.
— Meu filho, você não quer almoçar? Não comeu nada hoje.
― Eu não sinto fome, heróis se alimentam do sentimento que há nas
pessoas.
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