LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Clarice de Assis Rosa
Ituiutaba/MG
O abstrato encanto do seu olhar
Naquele instante, não o reconhecia mais; um menino, outrora, alegre, lépido,
que conversava comigo todos os dias, contando coisas banais sobre o seu dia a
dia, seus planos e anseios. Ele sonhava em ser escritor.
― Mãe, hoje a professora passou uma tarefa de casa muito legal, pediu para
fazer uma redação contando sobre as nossas férias. Eu adoro escrever!
― Que legal, você quer ajuda?
― Não, mãe, redação não se faz com ajuda, são minhas ideias.
— Tudo bem, mas vê se desta vez conta como foram as suas férias de
verdade, pois você inventa cada uma!
― Mas é de verdade, mãe.
De uma redação de trinta linhas, Felipe desenvolvia, pelo menos, umas
setenta. Ali poderia escrever o que quisesse, sem medo de ser advertido por
desejar coisas consideradas impróprias. Dava vazão a sua imaginação, não tinha
limites, nem regras a serem seguidas. Sentia-se onipotente por controlar a sua
vida, seu destino e seus sonhos.
Gostava também de desenhar, não tanto quanto gostava de escrever, mas
se divertia fazendo uso de jogo de imagens, cores.Tinha atração pelo que lhe
sugeria ser enigmático, arriscado, um tanto quanto abstrato. Eram seus
peculiares desejos, muitas vezes ocultos e incompreendidos.
Nas brincadeiras com colegas , preferia sempre ser o vilão.Dizia que os
benfeitores eram seres limitados, que ficavam sujeitos ao caráter padrão imposto
pela sociedade, enquanto o facínora poderia ir além, não precisava ser aceito e
mais ainda: era temido por todos.
— Felipe, sua redação ficou ótima, mas não combinamos que você iria
escrever como realmente foram as suas férias?
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