LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Cleidirene Rosa Machado
Catalão/GO
Desvarios Entregues Ao Frio Da Noite
Ele, tão ele, mas não está mais aqui,
Somente eu estou aqui, tão perto daqui
Como um doce passo, estranha dança
Para um lado e para o outro na balança
Inquieta e incorrigível, serena a rodopiar
Meu coração constante, arredio a saltitar
E em murmúrios bravios inertes a chorar.
Olho-me no espelho de bronze prateado
Vejo a sombra do meu tórrido passado
Meus cabelos que se adornam em flores
Um batom rosado em desmedidas cores
O vestido borrado em purpurina irlandesa
Os cacos de vasos quebrados sobre a mesa.
Eu sei que ele se foi e não irá mais voltar,
E continuarei singelamente sozinha a rodopiar
Para um lado e para o outro delicada a dançar
Mas pela porta da frente ele não mais virá.
Posso sentir o seu perfume de jasmim
O toque do seu beijo em meu rosto frio
O reflexo no espelho do que sobrou de mim
Mas onde estou? É tudo tão sombrio.
Junto aos cacos caídos, um punhal de dois gumes
Tão gracioso e cortante e com brilho a me entregar
Elevo minha mão a procura do grande cume
Mas atinjo-me em fendas e começo a gotejar.
Tão serena e tranquila e um tanto atrevida
Olho-me desfalecer sem nenhum suspiro de vida
A planície solida toma-me gélida nos braços
Já com meus olhos fechados aos flocos de neve do terraço
Sinto que os germes tomam toda minh’a alma
Sinto que agora tenho que manter minha calma.
A quaisquer momentos estarei entregue ao frio vento
É a lei do mundo, fim de meu desvario tormento.
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