Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 70

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Cleidirene Rosa Machado Catalão/GO Desvarios Entregues Ao Frio Da Noite Ele, tão ele, mas não está mais aqui, Somente eu estou aqui, tão perto daqui Como um doce passo, estranha dança Para um lado e para o outro na balança Inquieta e incorrigível, serena a rodopiar Meu coração constante, arredio a saltitar E em murmúrios bravios inertes a chorar. Olho-me no espelho de bronze prateado Vejo a sombra do meu tórrido passado Meus cabelos que se adornam em flores Um batom rosado em desmedidas cores O vestido borrado em purpurina irlandesa Os cacos de vasos quebrados sobre a mesa. Eu sei que ele se foi e não irá mais voltar, E continuarei singelamente sozinha a rodopiar Para um lado e para o outro delicada a dançar Mas pela porta da frente ele não mais virá. Posso sentir o seu perfume de jasmim O toque do seu beijo em meu rosto frio O reflexo no espelho do que sobrou de mim Mas onde estou? É tudo tão sombrio. Junto aos cacos caídos, um punhal de dois gumes Tão gracioso e cortante e com brilho a me entregar Elevo minha mão a procura do grande cume Mas atinjo-me em fendas e começo a gotejar. Tão serena e tranquila e um tanto atrevida Olho-me desfalecer sem nenhum suspiro de vida A planície solida toma-me gélida nos braços Já com meus olhos fechados aos flocos de neve do terraço Sinto que os germes tomam toda minh’a alma Sinto que agora tenho que manter minha calma. A quaisquer momentos estarei entregue ao frio vento É a lei do mundo, fim de meu desvario tormento. [67]