LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
academia, camisa polo, ele era o genro que qualquer sogra pediria a Deus. Mas
depois que ele saiu da escola ano retrasado, ele começou a ficar... estranho. Foi
ficando cada vez mais arrogante, começou a brigar com todo mundo, e a
descontar na Daisy boa parte daquilo tudo. Eu acabei me afastando, e no fundo,
no fundo, eu ficava feliz com não ter mais ele por perto; agora eu podia ser bem
mais próximo da Daisy. Podia me iludir mais.
E era exatamente o que eu fazia naquele momento, enquanto caminhava
com ela pelo pátio do colégio. O bom de colégio do interior é que ficava bonito
nessa época do ano, com um monte de margaridas florescendo aqui e ali. Nos
sentamos num banco daquele muito adequado cenário, e escolhi umas duas ou
três perguntas para ela, para tentar fazer ela me explicar o que era aquilo tudo.
Era ela quem precisava falar, o meu papel ali era ouvir.
E não demorou. Como eu desconfiava, tinha sido essa noite. Ela não dormiu
nada, nada. A história é que ela estava deitada junto com ele na casa dele,
pegou o celular dele para procurar o remédio com a luz da tela, e ali estava a
prova do crime. Chat com uma “amiga” dela, sem bloqueio, sem senha, e
absolutamente sem pudor nenhum. Ela acordou o Bruno no chute, eles brigaram
por quase uma hora, ele falou que não precisava namorar uma gorda que nem
ela, e no final ela teve que voltar de Uber para casa no meio da madrugada
porque o Bruno expulsou ela. Pior, ele ameaçou ela.
Eu escutei aquilo com o queixo no chão. Cada vez que eles terminavam era
pior. Cada vez que batia na telha do Bruno que ele era dono do mundo (e dono
da Daisy por tabela), eu escutava mais uma história de terror sobre como eu não
estava lá para proteger a menina do meu coração. Não que a Daisy me culpasse,
mas eu já me culpava por dois. E culpava o Bruno também, pelo diabo. Ele já
teve muito do meu respeito, mas se puxou para perder tudo.
Quando ela parou de falar, me olhou no fundo dos olhos, e eu me obriguei a
ver que não havia naquele olhar o mesmo que havia no meu. Ela se abria
completamente comigo, me contava cada medo da alma dela, mas ela só me via
como amigo, esperando que eu desse algum conforto a ela. Essa era sempre a
parte mais difícil, mas com o tempo eu aprendi, e de toda forma decidi ser mais
direto dessa vez. Eu falei para ela que ela merecia coisa melhor que aquilo, que
ela não precisava ficar junto de alguém que desprezava o amor dela, e se o
Bruno quiser ter as outras, então ele que as tenha. Nesse ponto fiquei com medo
de ter falado demais, mas ela só assentiu. Me deu um beijinho na bochecha e me
agradeceu por sempre salvar a vida dela. Eu sinceramente queria que aquela
fosse a última vez que eu precisasse fazer isso.
O sinal tocou, ela se levantou para voltar para a sala. Deu dois passos, se
voltou para mim e me falou para vir junto. Mas por algum motivo eu não
conseguia levantar daquele banco. Era tudo tão confuso, eu, a Daisy, o Pedro, as
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