Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 49

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Cacyo Nunes Gravataí/RS Daisy O Bruno tinha terminado com a Daisy. De novo. Ninguém anseia pela volta às aulas. As férias de inverno acabam, a primavera chega, e a gente tem que parar de vadiar em casa e acordar cedo para ir à aula. Mas era por isso mesmo que eu me sentia o estranho da minha sala; eu esperei pelo retorno o inverno inteiro. Para poder ver a Daisy de novo. É claro que a gente se falou o tempo todo, mas pessoalmente é diferente. Pessoalmente dá para encostar nela, sentir o cheiro dela. Pessoalmente, é mais fácil de eu me iludir pensando que ela poderia ser minha algum dia. Eu adivinhei no momento em que a vi entrando na sala de aula. Baixinha, cheinha, branca que nem papel e com olheiras quase até o queixo. Meu Deus, que aquilo fossem olheiras e não o roxo de um soco. Não era a primeira vez que ela terminava com o namorado - este ano. Ela veio direto sentar do meu lado e me resumiu um pouco a situação, mas a aula já ia começar, e o rosto dela dizia claramente que ela ainda precisava me dizer mais depois. Sendo franco, eu sabia bem que ela precisava era chorar mais. A aula de inglês começou, e não recebeu nada da minha atenção. Eu era todo Daisy. A garota do meu lado claramente não tinha condição nenhuma de ficar naquela aula, a sala inteira estava vendo as lágrimas que ela tentava segurar. Aquilo me deu uma raiva... uma raiva do mundo todo. O tipo de raiva que faz todo o sentido quando você tem quinze anos. Uma raiva desse mundo hipócrita só te deixa faltar uma aula se você quebrar um braço, e não o coração, que é órgão muito mais vital.Mas aquilo também me deu uma raiva… de mim. Da minha impotência, da minha incompetência em ajudar a minha melhor amiga, a menina que eu amava. Eu não tinha nem o jeito para confortar ela e nem a força para quebrar o pescoço do Bruno. Eu era só o William, preto, pobre, seco e sem jeito. Eu só sabia falar com a Daisy. E sobre o que eu sentia por ela, então, eu não teria coragem de falar nunca. Que chance me sobrava? Graças a Deus a aula acabou e o intervalo chegou. Daisy me olhou, eu olhei para ela, a gente sabia que não tinha um segundo a perder. Enquanto eu me levantava da classe já fui perguntando, foi o Bruno de novo, não foi? Ela não falou nada, só fechou os olhos, soluçou e assentiu. Deduzi que a coisa era recente, ou ela teria me contado pelo celular mesmo. Eu sempre respeitei o Bruno, eu era muito amigo dele. Cabelo ruivo bem cortado, barriguinha de [46]