LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Cacyo Nunes
Gravataí/RS
Daisy
O Bruno tinha terminado com a Daisy. De novo.
Ninguém anseia pela volta às aulas. As férias de inverno acabam, a
primavera chega, e a gente tem que parar de vadiar em casa e acordar cedo para
ir à aula. Mas era por isso mesmo que eu me sentia o estranho da minha sala; eu
esperei pelo retorno o inverno inteiro. Para poder ver a Daisy de novo. É claro
que a gente se falou o tempo todo, mas pessoalmente é diferente. Pessoalmente
dá para encostar nela, sentir o cheiro dela. Pessoalmente, é mais fácil de eu me
iludir pensando que ela poderia ser minha algum dia.
Eu adivinhei no momento em que a vi entrando na sala de aula. Baixinha,
cheinha, branca que nem papel e com olheiras quase até o queixo. Meu Deus,
que aquilo fossem olheiras e não o roxo de um soco. Não era a primeira vez que
ela terminava com o namorado - este ano. Ela veio direto sentar do meu lado e
me resumiu um pouco a situação, mas a aula já ia começar, e o rosto dela dizia
claramente que ela ainda precisava me dizer mais depois. Sendo franco, eu sabia
bem que ela precisava era chorar mais.
A aula de inglês começou, e não recebeu nada da minha atenção. Eu era
todo Daisy. A garota do meu lado claramente não tinha condição nenhuma de
ficar naquela aula, a sala inteira estava vendo as lágrimas que ela tentava
segurar. Aquilo me deu uma raiva... uma raiva do mundo todo. O tipo de raiva
que faz todo o sentido quando você tem quinze anos. Uma raiva desse mundo
hipócrita só te deixa faltar uma aula se você quebrar um braço, e não o coração,
que é órgão muito mais vital.Mas aquilo também me deu uma raiva… de mim. Da
minha impotência, da minha incompetência em ajudar a minha melhor amiga, a
menina que eu amava. Eu não tinha nem o jeito para confortar ela e nem a força
para quebrar o pescoço do Bruno. Eu era só o William, preto, pobre, seco e sem
jeito. Eu só sabia falar com a Daisy. E sobre o que eu sentia por ela, então, eu
não teria coragem de falar nunca. Que chance me sobrava?
Graças a Deus a aula acabou e o intervalo chegou. Daisy me olhou, eu olhei
para ela, a gente sabia que não tinha um segundo a perder. Enquanto eu me
levantava da classe já fui perguntando, foi o Bruno de novo, não foi? Ela não
falou nada, só fechou os olhos, soluçou e assentiu. Deduzi que a coisa era
recente, ou ela teria me contado pelo celular mesmo. Eu sempre respeitei o
Bruno, eu era muito amigo dele. Cabelo ruivo bem cortado, barriguinha de
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