Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 264

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Os dois velhos trocaram olhares, cerca de um metro e meio de distância um do outro. Arthur segurando a katana com firmeza; o velho segurando o carrinho. Três segundos de silêncio que mesmo os cães respeitaram. Até que o estranho fez um aceno com a cabeça, gesto de concordância. Era uma forma de mostrar que era da paz, entendeu Arthur, que retribuiu o sinal. Arthur já havia separado o que era útil do lixo da casa em uma sacola. Colocou na mochila e partiu para a próxima. Quando começou a vasculhar a lixeira, uma caçamba grande e verde, sentiu o corpo sendo puxado para trás. O velho o puxara pela mochila, com cara zangada. Arthur mostrou um sorriso amarelo: — Que isso, chapa, eu cheguei aqui primeiro. Tente a outra casa — disse com calma. Por sua vez, o velho de macacão vermelho estava com os olhos cortando de raiva. Chegava a mostrar os dentes. Arthur raciocinou que a melhor opção seria uma saída pacífica. Recuou para ir embora, mas o homem foi em sua direção puxando o carrinho. Deu um encontrão em Arthur, que cambaleou e só não caiu perto do meio fio porque usou a companheira katana como apoio. Nesse momento, Arthur sentiu a mente rodopiar. Olhos não viam mais a lixeira, a rua ou o rival reciclador. Era outro o cenário. Começou a ouvir a trilha sonora do programa: Há uma força/Força que alimenta o coração/Vamos juntos, unidos/Enfrentar a multidão... Estava prestes a começar a batalha do século. De um lado, o lendário samurai Arthur, o escavador, com a katana masamune, capaz de dividir montanhas com um simples golpe. De outro, o vilão destruidor de mundos, Guia Vermelho, com a carruagem que cruza os céus acompanhada pelo uivo de mil cérberos. Guia Vermelho, após o primeiro ataque, avançou a carruagem em direção ao herói. Arthur desviou como um ninja. Girou a katana em um golpe que tinha como destino a cabeça de Guia Vermelho, mas este conseguiu abaixar a tempo. Arthur recuou em um pulo. Precisava de uma estratégia de ataque. Guia Vermelho usava muito bem a carruagem como escudo. [261]