LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Foi caminhando até a região do Jardim Social. Bairro residencial, não contava
com os típicos bares e lanchonetes onde era fácil encontrar as latas. Mas Arthur
tinha um segredo. Sabia que muitas famílias reciclavam as latas separando-as
em sacos distintos, coisa de intelectual que acha que assim salva o mundo.
Bastava dar uma espiada nas cestas de lixo. Outra vantagem era que conhecia o
guardinha que passava de colete preto montado na moto de quinze em quinze
minutos pelas ruas: seu filho. O jovem trabalhava em uma empresa de
segurança particular, perto de completar três meses de experiência, após um
bom tempo desempregado.
Arthur cantarolava uma canção de um dos animes enquanto revirava a
primeira grande caçamba de lixo que encontrou:
Há uma força
Força que alimenta o coração
Vamos juntos, unidos
Enfrentar a multidão...
Riu. As letras eram bem simples (ainda mais as adaptações literais
brasileiras), coisa de baka, pensou, mas grudavam na mente como chiclete.
Retirava com cuidado as latinhas e outros recicláveis. Não queria ser repreendido
por bagunçar o lixo alheio. Certa vez uma senhora, daquelas dondocas
carregando um cachorro mais enfeitado que boneca Barbie, quase surtou só
porque ele deixou cair uma sacola fora da lixeira por dois minutos.
A atenção foi desviada da tarefa quando ouviu os cães latindo na esquina. Os
cães no geral já estavam habituados com sua presença, mas algo diferente
incomodava os animais. Olhou. Virando a esquina, um carrinho de recicláveis
cheio de papelão e entulho era puxado por um senhor de pouco mais de um
metro e meio de altura, com macacão vermelho encardido. Usando uma toca, os
olhos esbugalhados afundados no rosto negro cansado. Foi arrastando o carrinho
em direção a Arthur, uma sinfonia de cães ladrava atrás de enormes portões de
ferro.
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