LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Wellington dos Santos
Curitiba/PR
Katana de Madeira
Perto das sete da manhã de uma terça-feira. Caminhava no acostamento da
BR-116, saindo da Vila Zumbi em direção ao Trevo do Atuba. A lâmina de frio
cortava a pele negra coberta com um blusão de lã preta, calça moletom azul,
mochila nas costas, luva rasgada e toca.
Parou no trevo. Arthur tinha mania de fazer isso. Carregava na mão direita
uma ripa de madeira, sobra de um dos casebres ao lado do seu, de cerca de um
metro. Ergueu. Apontou para o trevo.
— Aqui começa a jornada do samurai solitário! — disse, com entusiasmo.
A frase era de um personagem de desenhos animados japoneses. Era
fascinado pelas aventuras dos jovens de olhos esbugalhados, cabelos espetados e
saltos sobrenaturais. Aos sessenta e dois anos de idade, queria ser um daqueles
humanoides que via na televisão, no barraco de madeira que dividia com o filho
mais velho. Acompanhava o seu favorito, Quixim Sansei, que narrava as
aventuras de um andarilho samurai, Quixim, e seu fiel escudeiro, Pançudo,
lutando contra as forças do mal na península Ibérica.
Chamava o pedaço de madeira que carregava de katana. Não que tenha
usado algum dia como arma, era apenas para fins lúdicos. No frio, para aquecer,
a imaginação mantinha as ideias firmes e retalhava a depressão para longe.
Assim prosseguiu, com a missão do dia: recolher latinhas de alumínio.
Naquela época, catador de latinhas conseguia um dinheiro razoável. Na Zumbi
muitos já faziam, então era preciso caminhar com o tênis velho até os bairros
nobres da cidade para conseguir o metal precioso. Considerava-se não um
catador, e sim um autêntico caçador de tesouro perdido.
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