Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 244

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 dormia com tranquilidade, temendo falar durante o sono, contando a agonia que me perseguia todos os dias e todas as noites. Adquiri vícios pessoais e solitários. Nem a psicoterapia a que me submeti, com dezesseis anos, resolveu aquele temor. Talvez, por eu não me perdoar, pois incuti em meu ser a culpabilidade pelos acontecimentos. Dessa vez, não consegui voltar da minha regressão. Fiquei em algum lugar do passado, perdido de mim mesmo, por um tempo do qual não tenho consciência. Hoje, os amigos que me acompanharam nesta vida até o presente, dizem que fiquei louco por muitos anos, talvez uns vinte anos. Sugiro que pergunte a eles sobre o que me aconteceu e como vivi durante todos esses anos, pois melhor do que eu possa narrar, eles foram testemunhas. Consenti em seguir a sugestão do Loco. Procurei nossos poucos amigos comuns, que permitiram que a entrevista fosse gravada, com a condição de que seus nomes não fossem mencionados. 1ª testemunha: “ Antes da lamentável fase de loucura do Loco, estranhávamos suas ausências esporádicas durante dias seguidos. Do interior de sua casa somente silêncio, nem música que ele tanto apreciava, nem ruídos que pudessem transparecer qualquer atividade. E assim foi durante poucos meses, talvez no máximo dois. Somente quando se ouviu gritos histéricos, guturais ou gemidos, de coisas quebrando, e ao surgirem vidraças quebradas por ação do interior para o exterior, tanto de dia quanto de noite, é que decidimos, em conjunto, invadir a casa do Loco. Decisão acertada, pois foi logo ao segundo dia. Discretamente, forçamos a porta dos fundos, evitando que outras pessoas percebessem nossa atividade. Nos deparamos com espetáculo horroroso, sujeira e vidros quebrados pelo chão, da cristaleira, antes tão bela pelos cristais, nada mais restava, incluindo as portas. E fomos adentrando, chamando por ele, nenhuma resposta, passando pela copa, pela cozinha, tudo quebrado e abandonado, quando ouvimos um uivo aterrorizante, como de um lobo, vindo do banheiro. Para lá nos dirigimos rápidos, sentindo objetos sendo quebrados aos nossos pés, e lá o encontramos encolhido na banheira vazia, sujo pelo próprio sangue, com quase totalidade do corpo ferido por cortes. Seus olhos estavam abertos, vidrados, como quem aprecia uma cena de terror, parecendo não nos enxergar e, também, sem nos ouvir quando o chamamos pelo nome. Tentamos ergue-lo, mas, não nos ajudava e reagia como se tentasse se esconder. Foi preciso quatro de nós, segurando pelos membros, para leva-lo para o quarto, que ainda se encontrava arrumado. Tivemos que usar lençóis para detê-lo na cama. Nada compreendíamos do que ele tentava reclamar, pois de sua boca eram emitidos gemidos e grasnar. Sabíamos que ele tinha um plano de saúde, resolvemos telefonar, narramos o acontecido e eles mandaram uma ambulância para recolhe-lo. Eu, pessoalmente, não soube, depois disso, o que veio a lhe [241]