Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 243

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 acontecimentos, que me acompanharam por anos e anos seguidos, perturbando os rendimentos de minha vida pessoal. Em idas e vindas pela memória, rejeitando tudo o que não era de interesse imediato, cheguei a fase de meus nove anos de idade. Ali eu estava contaminado por uma fantasiosa corrupção da psique, consequência das inadequadas companhias de meus supostos amigos. Aprendia com eles, e também com elas, de modo errôneo, sobre a vida em que estávamos inseridos. E o erro maior e fatal era sobre a sexualidade que as crianças vão descobrindo com os instrutores ignorantes, que são os daquela fase infantil. Sexo era um tabu, que os adultos evitavam expor para os infantes. Havia, com naturalidade, consentida e estimulada pelos adultos, uma insuspeita homossexualidade – meninos com meninos e meninas com meninas. Em certas ocasiões não podiam ficar juntos, em outras oportunidades podiam ficar brincando. Hora com limitações, hora sem limitações. Minha iniciação sexual com o sexo oposto tinha ocorrido naquela fase infantil, em que elas, mais velhas, tomavam a iniciativa. Quem sabe se resultou daí a minha atual falta de iniciativa, essa timidez que sempre me atormentou. Finalmente, após longo tempo decorrido, a mente chegou ao ponto que eu buscava. Vi-me, numa tarde de domingo, dia ensolarado, após o almoço, em que eu buscava a rua, indo para quadra adiante, procurando pelo meu algoz. Ele, que abusara de mim quando eu tinha uns quatro anos de idade, e eu já nem me lembrava do ocorrido entre nós. Desde então, havia entre nós dois uma amizade comum, sem quaisquer outras intenções secundárias. Era, para mim, um instrutor mais velho, mais experiente, que me passava informações solicitadas. Se eram apropriadas e saudáveis, eu não tinha como duvidar. Lá chegando, subimos para a área aberta do segundo andar da casa. Ficamos no lado da área sombreada. Conversando sobre muitos assuntos, ele aos poucos foi me conduzindo para o assunto, para ele importante, que eram as suas atividades sexuais. Eu o escutava encantado pelas novidades. Ele gabava-se de suas conquistas e de seus feitos, como se fosse um herói. Eu já sentindo algo como uma inveja. Manifestei-lhe o meu desejo de experimentar, com uma inocência tão ingênua ofereci-me para ele. E, infelizmente, o fato aconteceu. O que eu não suspeitava era que ele, tão vaidoso de suas conquistas, iria espalhar aos conhecidos sua vitória sobre minha fragilidade. A verdade era que eu já possuía noção do certo e do errado, do justo e do injusto; então já não era um inocente, porém, tinha sido sua vítima. Dias após, numa manhã, fui surpreendido por um primo de meu vizinho, este era da minha idade, que me agrediu com palavras rudes e inesperadas, que ficara sabendo daquele fato em que fui a vítima, e que ele também queria que eu me submetesse aos seus caprichos. Neguei-lhe o acontecido, manifestando estar sendo ofendido. E o pavor de que todos soubessem do ocorrido, incluindo, principalmente, o meu pai, fez-me perder, daí em diante, o melhor da existência. Por muitos anos, nem [240]