Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 242

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Repousei por três dias. Senti necessidade imperiosa de vasculhar meu passado, onde estavam sepultadas as causas de minhas angústias e frustações atuais, que me conduziam a comportamentos extravagantes. Ao anoitecer, recomecei o processo mental de regressão. Voltei a mergulhar no passado, até quando tinha uns cinco anos de idade. Um pouco além de oito horas da noite, horário de crianças irem dormir. Dormíamos, eu e minha irmã, três anos mais nova, no mesmo quarto em camas separadas. Fechada a porta do quarto pela minha mãe, ficamos os dois de bate papo ininteligível até que o sono nos dominasse. Contudo, isso não aconteceu. Dirigi-me para a cama da irmã. Deitei- me ao seu lado. Logo em seguida pus-me sobre ela, dizendo: “Vamos fazer como papai e mamãe”. Dia seguinte, durante a tarde, minha mãe dava banho na maninha, eu apreciando, quando ela reclamou que estava ardendo. A mãe virou- se para mim e perguntou seriamente se eu fizera alguma coisa com ela. Prontamente eu neguei. Naquele momento veio à minha consciência que eu fizera algo muito errado. Primeira noção de pecado. Então, eu era um pequeno demônio. Aquela visão do passado pecaminoso, perturbou-me de tal maneira que, com imensa dificuldade, voltei ao presente, fugindo de todo aquele horror. Durante dias seguidos um remorso incurável perseguiu-me, dilacerando minha alma num sofrimento indizível, fazendo com que eu evitasse qualquer contato com pessoas, além de para comigo mesmo em solidão. Repetia para mim mesmo, constantemente, que nenhuma criança é inocente, como para justificar- me. Tinha perfeita noção de que se iniciara um processo de loucura. Se queres saber, isto é o verdadeiro inferno, aqui e agora. Transcorreram algumas semanas sem que eu pudesse estar equilibrado, harmonizado em mim mesmo. Comecei por me odiar e, também, a minha mísera existência. E que valor real teria esta nessas condições? Vagarosamente foi-me voltando a lucidez e a lógica de meus pensamentos. Recordei com repugnância as regressões da consciência a que eu próprio me submetera, sem qualquer assistência profissional. Entretanto, precisava continuar minha particular pesquisa, nem que fosse pela última vez, com risco total de tornar-me, em definitivo, um louco. Certa noite, após o lanche noturno, fiquei tranquilo e leve, lúcido e com pensamentos lógicos, equacionando causas e efeitos na minha vida e, então, senti necessidade de descobrir a última causa de meus tormentos e vergonhas atuais nos meus relacionamentos, que tanto transtornou minha vida social. Deitei-me ali mesmo no sofá da sala, concentrando minha atenção na respiração, o ar entrando e saindo dos pulmões, com uma paz invadindo todo o meu ser, relaxando todo o corpo, fui delicadamente levando a mente para o passado, buscando na memória, com nitidez, um fato que me emocionara muito, que me amedrontou, por temer que outras pessoas descobrissem aqueles [239]