LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Repousei por três dias. Senti necessidade imperiosa de vasculhar meu
passado, onde estavam sepultadas as causas de minhas angústias e frustações
atuais, que me conduziam a comportamentos extravagantes. Ao anoitecer,
recomecei o processo mental de regressão. Voltei a mergulhar no passado, até
quando tinha uns cinco anos de idade. Um pouco além de oito horas da noite,
horário de crianças irem dormir. Dormíamos, eu e minha irmã, três anos mais
nova, no mesmo quarto em camas separadas. Fechada a porta do quarto pela
minha mãe, ficamos os dois de bate papo ininteligível até que o sono nos
dominasse. Contudo, isso não aconteceu. Dirigi-me para a cama da irmã. Deitei-
me ao seu lado. Logo em seguida pus-me sobre ela, dizendo: “Vamos fazer como
papai e mamãe”. Dia seguinte, durante a tarde, minha mãe dava banho na
maninha, eu apreciando, quando ela reclamou que estava ardendo. A mãe virou-
se para mim e perguntou seriamente se eu fizera alguma coisa com ela.
Prontamente eu neguei. Naquele momento veio à minha consciência que eu
fizera algo muito errado. Primeira noção de pecado. Então, eu era um pequeno
demônio. Aquela visão do passado pecaminoso, perturbou-me de tal maneira
que, com imensa dificuldade, voltei ao presente, fugindo de todo aquele horror.
Durante dias seguidos um remorso incurável perseguiu-me, dilacerando minha
alma num sofrimento indizível, fazendo com que eu evitasse qualquer contato
com pessoas, além de para comigo mesmo em solidão. Repetia para mim
mesmo, constantemente, que nenhuma criança é inocente, como para justificar-
me. Tinha perfeita noção de que se iniciara um processo de loucura. Se queres
saber, isto é o verdadeiro inferno, aqui e agora.
Transcorreram algumas semanas sem que eu pudesse estar equilibrado,
harmonizado em mim mesmo. Comecei por me odiar e, também, a minha mísera
existência. E que valor real teria esta nessas condições? Vagarosamente foi-me
voltando a lucidez e a lógica de meus pensamentos. Recordei com repugnância
as regressões da consciência a que eu próprio me submetera, sem qualquer
assistência profissional. Entretanto, precisava continuar minha particular
pesquisa, nem que fosse pela última vez, com risco total de tornar-me, em
definitivo, um louco.
Certa noite, após o lanche noturno, fiquei tranquilo e leve, lúcido e com
pensamentos lógicos, equacionando causas e efeitos na minha vida e, então,
senti necessidade de descobrir a última causa de meus tormentos e vergonhas
atuais nos meus relacionamentos, que tanto transtornou minha vida social.
Deitei-me ali mesmo no sofá da sala, concentrando minha atenção na
respiração, o ar entrando e saindo dos pulmões, com uma paz invadindo todo o
meu ser, relaxando todo o corpo, fui delicadamente levando a mente para o
passado, buscando na memória, com nitidez, um fato que me emocionara muito,
que me amedrontou, por temer que outras pessoas descobrissem aqueles
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