Revista LiteraLivre 17ª edição | Página 241

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 avulso e breve de controle mental, muito em voga naquela época. Tomei conhecimento da possibilidade de regressão da memória, até ao período de vida intrauterina, induzido por profissionais especializados em hipnose. Certa noite, antes de adormecer, resolvi, por conta própria, praticar a tal regressão. E eu tinha um pavor de não conseguir voltar ao tempo presente. Aos poucos fui praticando e recuando no passado, participando sem controle das cenas do passado em minha vida. Ainda não me satisfazia até onde conseguira atingir; queria ver-me em consciência das primeiras cenas que, então, me impressionaram. O regresso ao presente estava se tornando mais e mais lento, dificultoso, que requeria de minha psique, a cada vez, maior quantidade de energia, deixando-me exausto, sem forças para agir fisicamente. Percebi que estava correndo um grande perigo em tal prática solitária. Descansei por uma semana. Então, já refeito, com uma obsessão a dominar-me, reiniciei à noite o processo mental. Fui regredindo até meados da primeira infância; não, um pouco mais além, quando, ainda dormindo no berço que se localizava ao lado da cama de casal, acordei com gemidos estranhos e apreciei o intercurso sexual dos meus genitores, até que eles perceberam que eu estava atento e a mãe recolocou-me em posição de dormir, o que finalmente aconteceu. Não entendi nada daquilo, que é da natureza dos seres vivos, e ficou fixado na memória inconsciente. E teve consequências no futuro da primeira infância. Esforcei-me e fui avançando lentamente no tempo, quando um novo acontecimento firmou minha atenção. Ali, eu estava com, aproximadamente, uns quatro anos de idade. A cena, recordada e vista, iniciava na rua junto a um grupo de rapazes que conversavam algum assunto que não compreendia, quando o rapazinho negro, em início da adolescência, que tomava conta de mim, afastou- se, puxando-me pela mão retornando à residência, atravessou o jardim, passou pela frente da porta da sala, onde o meu pai escutava o rádio com ouvido colado, dirigiu-se ao fundo do quintal, passando pelo muro tombado para o terreno vizinho. Sem qualquer obstáculo de minha parte, ele colocou-me de quatro, arriando o meu short, encostou seu corpo entre minhas nádegas. Foi tudo muito rápido. Levantei-me, recoloquei o short, e senti o sêmen escorrendo pela perna. Limpei com as mãos, e as mãos limpei no short. Reclamei seriamente com ele, que pouco ouvido me deu. Na volta, em direção à rua, tornamos a passar em frente a porta da sala. Percebi que o pai, ainda com orelha colada ao rádio, nos viu, franziu o cenho, mas nada disse, nada perguntou. Naquele momento senti um sentimento de desamparo, ninguém por mim. Ainda não tinha noção dos abusos que vinha sofrendo nas mãos de pessoa conhecida da família. A partir daí não mais permiti que tal ato se repetisse. Esse último acontecimento fixou-se na memória subconsciente. [238]