LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Samuel Kauffmann
Rio de Janeiro/RJ
Retrocesso
Outra volta do parafuso.
Henri James
O Loco, assim ele era conhecido pelas pessoas que tinham algum contato
social com sua personalidade. Nascera na última década da primeira metade do
século XX. Nunca se dirigiram a ele com tal codinome; porém, em conversas
entre si, referiam-se a ele com aquele apelido – o louco. E por que assim se
referiam a ele? Loco é uma pessoa amorosa, com impressionante luz em seu
olhar, sempre disposto a ajudar seus semelhantes, possuidor de uma inteligência
brilhante, autêntico em suas dissertações, contestador de tradições antigas ou
comportamentos ou atitudes dos antiquados. Todavia, muito fechado em si
mesmo, ego centrado, caladão, difícil de se fazer com ele uma simples amizade,
escutava mais e melhor. Talvez por esta última qualidade, muitas eram as
senhorinhas idosas que o apreciavam.
Não são muitas as pessoas que, num círculo de amizade, se situam entre eu
e o Loco. E foi através delas que vim a conhece-lo. Curioso, com intenção de
melhor o conhecer e se possível ajuda-lo, é que lhe fui apresentado por amigos
comuns. Aos poucos comecei a frequentar sua residência. De conversa em
conversa fomos descobrindo pontos culturais em comum. Àquela época já
éramos idosos. Fato que auxiliou a sua confiança em minha pessoa. Algumas
coisas eu já sabia acerca dele pelo que me contavam nossos conhecidos.
Finalmente, chegou o momento tão ansiado em que ele começou a compartilhar
comigo toda a sua própria história. Fui um ouvinte, tal qual um psicanalista, tudo
registrando num gravador. E assim ele iniciou sua impressionante narrativa:
Durante décadas, desde minha adolescência, fui uma pessoa perturbada,
inconstante, tímido em excesso, mais ainda com o sexo oposto, sensual, pois
gostava de leituras eróticas. Muito dividido, não fui um estudante exemplar, a
ponto de cursar por três vezes uma das séries do ginasial. Interessava-me por
psicologia, parapsicologia, ficção científica, esoterismo, história da humanidade,
teosofia e teogonia, e outros assuntos correlatos. Com esse procedimento fugia
do currículo normal. Sentia-me mentalmente bem mais à frente dos meus
colegas. E isso só me causava angústia, bem mais do que satisfação, uma agonia
constante. Sou um solteirão infeliz. Já quarentão, fiz, por duas vezes, um curso
[237]