Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 245

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 suceder. Outro amigo, que o acompanhou, poderá lhe contar. Para mim, aquele foi um dia de grande tristeza. ” 2ª testemunha: “ Sorte do Loco, que fui técnico de enfermagem em instituição psiquiátrica, antes de aposentar. Foi-me permitido acompanha-lo na ambulância. Expliquei-lhes tudo o que vinha acontecendo com o infeliz, e o estado em que o encontramos, também da casa. Outra vez ele foi sedado para que o lavassem e aplicassem curativos. Ele estava desnutrido e desidratado. Colocaram-lhe soro venoso. E assim ele ficou por mais de 24 horas dormindo. Dia seguinte voltei para visita e também me ofereci como acompanhante. Convocaram um médico psiquiatra, que tentava conversar com ele diariamente. Foi preciso lhe ministrar remédios específicos da psiquiatria. Todavia, ele não voltava a si. Uma junta médica optou por removê-lo para uma famosa instituição pública, já que o plano de saúde limitava os dias de internação. Soube, anos mais tarde, que aquele hospital passara a ser um museu com mostras das artes dos doentes mentais. Ali ele foi tratado objetivamente, a princípio com remédios, que pouco a pouco o foi tranquilizando. Minhas visitas foram escasseando, pois já não era necessária para quaisquer esclarecimentos. Presenciei, umas poucas vezes, ainda na fase agitada, comportamentos de um louco total. Certa vez, quando cheguei, dei com ele no jardim interno, andando de quatro e comendo grama; tive que gritar para que os enfermeiros o retirassem dali, pois poderia adquirir outras doenças. Participei aos amigos que teria de me ausentar por longo tempo, em visita aos familiares no norte do país. Realmente, demorei muito em retornar. Quando me lembrava dele, meus olhos marejavam. Que tristeza...! Pelo o que ele foi e pelo como ele estava naquela época. ” 3ª testemunha: “ Ofereci-me para visitar o Loco, pelo menos uma vez ao mês. Ele estava sendo muito bem tratado. A recuperação era lenta. A saúde voltava ao seu corpo, mas não à sua mente. Continuava ora triste, ora alegre. Ainda não falava, embora vez ou outra pronunciava palavras desconexas. O primeiro ano de internação passou sem grandes avanços. A partir daí minhas visitas foram se espaçando no tempo. Nós não queríamos esquece-lo. Meus amigos optaram para que a cada seis meses um de nós faria uma visita, atualizando para os restantes o quadro clínico. E os anos foram passando. Ao meio do nono ano, foi a minha vez. Surpresa! Ele me reconheceu! Como se tivéssemos feito amizade no dia anterior. Até o meu nome completo ele lembrou. O psiquiatra estava próximo e veio dar-me explicações. Disse que ele estava iniciando diálogos, contudo ele se recusava a falar sobre o passado, como se o negasse. E ficava, em seguida, mudo pelo resto do dia. Afirmou que era lá no passado que estavam as causas da conduta atual. O Loco passou a cuidar-se melhor, amar-se. Passeamos pelo jardim, conversando sobre planos futuros, o que causava minha maior admiração. Era como se ele estivesse sonhando [242]