LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
suceder. Outro amigo, que o acompanhou, poderá lhe contar. Para mim, aquele
foi um dia de grande tristeza. ”
2ª testemunha: “ Sorte do Loco, que fui técnico de enfermagem em
instituição psiquiátrica, antes de aposentar. Foi-me permitido acompanha-lo na
ambulância. Expliquei-lhes tudo o que vinha acontecendo com o infeliz, e o
estado em que o encontramos, também da casa. Outra vez ele foi sedado para
que o lavassem e aplicassem curativos. Ele estava desnutrido e desidratado.
Colocaram-lhe soro venoso. E assim ele ficou por mais de 24 horas dormindo. Dia
seguinte voltei para visita e também me ofereci como acompanhante.
Convocaram um médico psiquiatra, que tentava conversar com ele diariamente.
Foi preciso lhe ministrar remédios específicos da psiquiatria. Todavia, ele não
voltava a si. Uma junta médica optou por removê-lo para uma famosa instituição
pública, já que o plano de saúde limitava os dias de internação. Soube, anos
mais tarde, que aquele hospital passara a ser um museu com mostras das artes
dos doentes mentais. Ali ele foi tratado objetivamente, a princípio com remédios,
que pouco a pouco o foi tranquilizando. Minhas visitas foram escasseando, pois já
não era necessária para quaisquer esclarecimentos. Presenciei, umas poucas
vezes, ainda na fase agitada, comportamentos de um louco total. Certa vez,
quando cheguei, dei com ele no jardim interno, andando de quatro e comendo
grama; tive que gritar para que os enfermeiros o retirassem dali, pois poderia
adquirir outras doenças. Participei aos amigos que teria de me ausentar por
longo tempo, em visita aos familiares no norte do país. Realmente, demorei
muito em retornar. Quando me lembrava dele, meus olhos marejavam. Que
tristeza...! Pelo o que ele foi e pelo como ele estava naquela época. ”
3ª testemunha: “ Ofereci-me para visitar o Loco, pelo menos uma vez ao
mês. Ele estava sendo muito bem tratado. A recuperação era lenta. A saúde
voltava ao seu corpo, mas não à sua mente. Continuava ora triste, ora alegre.
Ainda não falava, embora vez ou outra pronunciava palavras desconexas. O
primeiro ano de internação passou sem grandes avanços. A partir daí minhas
visitas foram se espaçando no tempo. Nós não queríamos esquece-lo. Meus
amigos optaram para que a cada seis meses um de nós faria uma visita,
atualizando para os restantes o quadro clínico. E os anos foram passando. Ao
meio do nono ano, foi a minha vez. Surpresa! Ele me reconheceu! Como se
tivéssemos feito amizade no dia anterior. Até o meu nome completo ele lembrou.
O psiquiatra estava próximo e veio dar-me explicações. Disse que ele estava
iniciando diálogos, contudo ele se recusava a falar sobre o passado, como se o
negasse. E ficava, em seguida, mudo pelo resto do dia. Afirmou que era lá no
passado que estavam as causas da conduta atual. O Loco passou a cuidar-se
melhor, amar-se. Passeamos pelo jardim, conversando sobre planos futuros, o
que causava minha maior admiração. Era como se ele estivesse sonhando
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