LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Ao vê-lo passar pela porta, um turbilhão de sensações estranhas,
conflitantes e ambíguas, de nostalgia, de liberdade, de sufocamento, de alegria e
tristeza, de remorso e arrependimento invadiu-me com aquelas imagens
singulares da mocidade. Quis correr, saltar, gritar, voltar no tempo e espaço.
-Você está bem ?
Acordei sobressaltado mas com um imenso alívio.
Não foi à toa que “me esqueci” e me afastei dos amigos e deste em
particular.
No meu mundo de rotinas burocráticas, de exercer papéis bem definidos,
de manter rigorosamente os compromissos, de vontade de controlar as menores
coisas, de manter-me sério o tempo todo, já não há espaço para o improviso, a
conversa fiada e desinteressada, o desbunde, o deboche e a subversão. Todas
as lembranças, boas ou más tiveram um efeito pernicioso sobre mim.
As más porque me davam a certeza de ter fracassado. As boas porque me
davam a nítida sensação de que não terei mais chances de me renovar. Qualquer
nova conquista será alcançada a um alto preço.
Agora estou convicto de que este foi o primeiro passo para a instalação da
minha loucura.
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