Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 230

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Ao vê-lo passar pela porta, um turbilhão de sensações estranhas, conflitantes e ambíguas, de nostalgia, de liberdade, de sufocamento, de alegria e tristeza, de remorso e arrependimento invadiu-me com aquelas imagens singulares da mocidade. Quis correr, saltar, gritar, voltar no tempo e espaço. -Você está bem ? Acordei sobressaltado mas com um imenso alívio. Não foi à toa que “me esqueci” e me afastei dos amigos e deste em particular. No meu mundo de rotinas burocráticas, de exercer papéis bem definidos, de manter rigorosamente os compromissos, de vontade de controlar as menores coisas, de manter-me sério o tempo todo, já não há espaço para o improviso, a conversa fiada e desinteressada, o desbunde, o deboche e a subversão. Todas as lembranças, boas ou más tiveram um efeito pernicioso sobre mim. As más porque me davam a certeza de ter fracassado. As boas porque me davam a nítida sensação de que não terei mais chances de me renovar. Qualquer nova conquista será alcançada a um alto preço. Agora estou convicto de que este foi o primeiro passo para a instalação da minha loucura. [227]