LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Casei-me, tive filhos, estes cresceram, saíram de casa, deram-me netos,
passei por doenças graves. Tento vencê-las ou controlá-las Desenvolvi uma forte
tendência para ansiedade e depressão, por isso frequento semanalmente minha
terapeuta, com quem discuto qual é ponto de partida para a demência.
Num dia desses, Incitado por minha esposa, compareci a um velório de
pessoa de seu relacionamento. No meio da fila daquela gente que andava ao
redor do caixão para se despedir do falecido, deparei-me com ele.
-Chicão ?
Estava mais gordo, quase careca, com ar sério e meditativo.
-Você por aqui ?
-Eu é que pergunto. Era seu amigo ?
-Um paciente.
Saindo rapidamente da fila, fomos nos encostar num canto para colocar a
conversa em dia.
-Quanto tempo, Renato, esqueceu dos amigos ?
-Não – minto.
-E a família, como vai ?
-Tá bem .E a sua ?
-Bom, me separei da Lúcia, meu filho se formou em odontologia, casou,
montou um consultório junto ao meu.
Que safado – pensei. Roubou minha namorada para se livrar dela agora.
-Os meus também saíram da barra da calça. Tô esperando me aposentar e
ir morar na praia.
-Puxa, que legal te encontrar aqui.
-É mesmo – minto pela segunda vez.
-Toma aqui o meu cartão com telefone e endereço. Me liga para sairmos
juntos.
-Ok.Esqueci os meus – minto descaradamente – te ligo sim.
Abraçamo-nos e ele saiu.
A esposa veio em minha direção para perguntar-me algo.
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