Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 228

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 A constante militância no movimento estudantil levou-nos inevitavelmente a ocupar cargos nos respectivos diretórios acadêmicos. Participávamos de vários encontros, viajávamos para outras cidades, conhecíamos gente de toda parte, e hábitos de toda espécie (bebidas, drogas, sexo em grupo). De pacatos e ingênuos interioranos, tornamo-nos “bichos-grilos” e “porras- loucas”, de mente aberta e liberais, mas não devassos ou pervertidos e muito menos revolucionários. Afinal, cultivávamos as boas leituras (Marx, Sartre, Erich Fromm, Freud, Jung, Reich, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Camus, Proust), ótimos diretores de cinema (Fellini, Kurosawa, Polanski, Woody Allen, Glauber Rocha) e autores de teatro (Gianfrancesco Guarnieri, Brecht, Nelson Rodrigues, Sófocles, Shakespeare), além de exposições de pinturas e esculturas, e os concertos sinfônicos no municipal (músicas de Ravel, Chopin, Bach, Mozart, Beethoven). Experimentávamos as diversas religiões e suas seitas, tentando consolidar uma visão eclética dos pontos-de-vista humanos. Na medida do possível, contrabalançávamos um idealismo bem intencionado e comportado com a busca de prazer consumista. Nossos pais financiavam os estudos e todas as peripécias e estrepolias sem contestação, orgulhosos que estavam por terem seus filhos estudando na melhor universidade do país. Tornamo-nos amigos inseparáveis, eu o tinha como a um irmão. Sem segredos, sem temores, nem rancores. Cheguei a ter alguns outros , mas não tão próximos. Como 2 irmãos, tínhamos uma relação de amor e ódio. Depois de formados, seguimos caminhos distintos. Em função do meu trabalho, submeti-me a viver alternadamente em várias cidades, e até mesmo em outros países. Além de perdermos o contato físico, cada um criou vínculos que nos levaram a outros tipos de relacionamento e a novos interesses. O mundo real impôs definitivamente suas regras e responsabilidades. Não podíamos mais “fazer de conta”, “deixar prá lá”, “colar” ou “colocar a assinatura no trabalho de outro colega”. Havia acabado o “recreio”. [225]