LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
A constante militância no movimento estudantil levou-nos inevitavelmente
a ocupar cargos nos respectivos diretórios acadêmicos. Participávamos de vários
encontros, viajávamos para outras cidades, conhecíamos gente de toda parte, e
hábitos de toda espécie (bebidas, drogas, sexo em grupo).
De pacatos e ingênuos interioranos, tornamo-nos “bichos-grilos” e “porras-
loucas”, de mente aberta e liberais, mas não devassos ou pervertidos e muito
menos revolucionários.
Afinal, cultivávamos as boas leituras (Marx, Sartre, Erich Fromm, Freud,
Jung, Reich, Fernando Pessoa, Machado de Assis, Camus, Proust), ótimos
diretores de cinema (Fellini, Kurosawa, Polanski, Woody Allen, Glauber Rocha) e
autores de teatro (Gianfrancesco Guarnieri, Brecht, Nelson Rodrigues, Sófocles,
Shakespeare), além de exposições de pinturas e esculturas, e os concertos
sinfônicos no municipal (músicas de Ravel, Chopin, Bach, Mozart, Beethoven).
Experimentávamos as diversas religiões e suas seitas, tentando consolidar
uma visão eclética dos pontos-de-vista humanos.
Na
medida
do
possível,
contrabalançávamos
um
idealismo
bem
intencionado e comportado com a busca de prazer consumista.
Nossos pais financiavam os estudos e todas as peripécias e estrepolias sem
contestação, orgulhosos que estavam por terem seus filhos estudando na melhor
universidade do país.
Tornamo-nos amigos inseparáveis, eu o tinha como a um irmão. Sem
segredos, sem temores, nem rancores. Cheguei a ter alguns outros , mas não tão
próximos. Como 2 irmãos, tínhamos uma relação de amor e ódio.
Depois de formados, seguimos caminhos distintos. Em função do meu
trabalho, submeti-me a viver alternadamente em várias cidades, e até mesmo
em outros países. Além de perdermos o contato físico, cada um criou vínculos
que nos levaram a outros tipos de relacionamento e a novos interesses.
O mundo real impôs definitivamente suas regras e responsabilidades. Não
podíamos mais “fazer de conta”, “deixar prá lá”, “colar” ou “colocar a assinatura
no trabalho de outro colega”. Havia acabado o “recreio”.
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