LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
A enfermeira sai e Nestor reabre os olhos. Ainda bem que Leninha não
acordou. Continua ressonando, mansamente. Sempre foi assim, sono profundo,
restaurador. Talvez seja pela ausência de remorsos.
De volta à penumbra, os pensamentos voam para as palavras irreverentes
da mãe, lá atrás. Ela dizia que todo moribundo, antes de morrer, apresentava
uma melhora assustadora. Mas que isso não a enganava. Sabia que a morte era
matreira e que só queria abocanhar a vítima com mais vigor. Nestor sente
vontade de rir, de gargalhar... A alma gargalha.
Leninha acorda. Busca, com os pés, os chinelos no chão. Aproxima-se da
cama. Agora ele a vê. Está colocada bem de frente, na mesma direção dos olhos
dele. Bonita. Mesmo com os cabelos grisalhos totalmente desgrenhados, continua
formosa. Serena. Mas os olhos embaciaram. Olha fixamente no rosto do amado,
bem de perto. É possível sentir o respirar pelas narinas. Tão perto, tão longe...
Nestor sente a carícia das mãos que passam pelos cabelos, pela testa, pelo
rosto... Leninha fala com os olhos, abraça com o cuidado. E ele se abandona no
abraço. Quer matar a saudade. Quer tocar aquele rosto, agradecer, gritar o seu
amor. Impossível. Mas ela sente, ela sabe. Sempre soube.
Nestor fecha os olhos. Quer emoldurar, na memória, aquele rosto. Quando
os reabre, ela não está mais ali. Silenciosa, voltou ao descanso. E ele, segue
envolto num turbilhão de pensamentos. Teima ser mais forte que a droga que lhe
foi injetada.
De repente, o peito inicia um repique. Batidas aceleradas do coração
provocam certa confusão nas ideias, parece que o corpo todo estremece, uma
onda de calor insuportável percorre as veias, queima. Depois, abranda. Chega
um frio abominável, insano.
Ele sabe que são as asas na constante luta pelo voo. Devem carregar o
cansaço acumulado por tantos anos. Puxa vida, tem ainda tanta coisa para
pensar! Mas está confuso. Não consegue conectar o fio do pensamento que
estava por ali, com ele, ainda há pouco. E sente um cansaço incontrolável, os
olhos pesam, as ideias fogem. Nem ouve mais o ressonar de Leninha. O gotejar
cessa.
O dia ainda nem clareou e o soro foi retirado. Leninha tem a certeza da
qual tanto se esquivara.
Ele não está mais ali.
O velho pássaro pousou.
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