Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 223

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 A enfermeira sai e Nestor reabre os olhos. Ainda bem que Leninha não acordou. Continua ressonando, mansamente. Sempre foi assim, sono profundo, restaurador. Talvez seja pela ausência de remorsos. De volta à penumbra, os pensamentos voam para as palavras irreverentes da mãe, lá atrás. Ela dizia que todo moribundo, antes de morrer, apresentava uma melhora assustadora. Mas que isso não a enganava. Sabia que a morte era matreira e que só queria abocanhar a vítima com mais vigor. Nestor sente vontade de rir, de gargalhar... A alma gargalha. Leninha acorda. Busca, com os pés, os chinelos no chão. Aproxima-se da cama. Agora ele a vê. Está colocada bem de frente, na mesma direção dos olhos dele. Bonita. Mesmo com os cabelos grisalhos totalmente desgrenhados, continua formosa. Serena. Mas os olhos embaciaram. Olha fixamente no rosto do amado, bem de perto. É possível sentir o respirar pelas narinas. Tão perto, tão longe... Nestor sente a carícia das mãos que passam pelos cabelos, pela testa, pelo rosto... Leninha fala com os olhos, abraça com o cuidado. E ele se abandona no abraço. Quer matar a saudade. Quer tocar aquele rosto, agradecer, gritar o seu amor. Impossível. Mas ela sente, ela sabe. Sempre soube. Nestor fecha os olhos. Quer emoldurar, na memória, aquele rosto. Quando os reabre, ela não está mais ali. Silenciosa, voltou ao descanso. E ele, segue envolto num turbilhão de pensamentos. Teima ser mais forte que a droga que lhe foi injetada. De repente, o peito inicia um repique. Batidas aceleradas do coração provocam certa confusão nas ideias, parece que o corpo todo estremece, uma onda de calor insuportável percorre as veias, queima. Depois, abranda. Chega um frio abominável, insano. Ele sabe que são as asas na constante luta pelo voo. Devem carregar o cansaço acumulado por tantos anos. Puxa vida, tem ainda tanta coisa para pensar! Mas está confuso. Não consegue conectar o fio do pensamento que estava por ali, com ele, ainda há pouco. E sente um cansaço incontrolável, os olhos pesam, as ideias fogem. Nem ouve mais o ressonar de Leninha. O gotejar cessa. O dia ainda nem clareou e o soro foi retirado. Leninha tem a certeza da qual tanto se esquivara. Ele não está mais ali. O velho pássaro pousou. [220]