LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
— Deu pra perceber. – disse ele mais uma vez demonstrando toda sua graça.
Ah, se aqueles fótons soubessem a fortuna que acabara de transportar. Ao
atravessarem as nuvens trazendo-me você. E dar-me a chance de ver esse rosto
pela primeira vez e descobrir que, querendo ou não, irei amá-lo pelo resto de
minha vida. E todo esse bendito universo fez sentido ao menos uma vez neste
dia tão especial – mais uma vez prestei-me a falar comigo mesma. E indaguei,
com certa lubricidade.
— Deu é?
Passamos às apresentações, conversamos sobre as coisas bobas que os
casais que se descobrem apaixonados repentinos conversam, demos risadas
encharcadas de chuva e dopamina; xingamos os motoristas dos carros que
jogavam água na calçada e os que não jogavam também. Tudo estava
encantadoramente perfeito. Quando lhe perguntei:
— E você, o que faz da vida e por essa outra banda do mundo, numa
Véspera de Natal, além de abordar moças desconhecidas com cantadas de
adolescentes, é lógico!...
A princípio ele hesitou envergonhado, pela minha indiscrição sobre suas
intenções, e como quem não está com intenção de falar seriamente. Por fim
soltou esta fala repentinamente tentando ser mais engraçado do que já estava
sendo.
— Eu sou um Super-herói!...
— Super-herói?... – exclamei gargalhando. – Tá tirando onda com a minha
cara?...
— Não… Não estou, não – riu alto ele também, fazendo-se parecer que
estava mesmo tirando onda comigo.
— Está bem!… E quais são seus poderes? Você voa, tem super-força e tal? –
perguntei, com o espírito de quem entra na brincadeira.
— Isso mesmo, eu voo acabei de voar! Saltei do Bungee Jumping!...
— Não acredito, eu também!...
— Olha, tem um café logo ali no Beco do Lilau e essa chuva não está com
jeito de que vai passar tão logo. A gente pode ir até lá comer uns Pastéis de
Belém, que tal? Daí eu te explico tudo com detalhe, sobre meus poderes... –
convidou-me ele.
E eu já percebendo suas intenções, que para minha alegria era minha
também.
Após uns tantos pastéis e muitas conversas sobre nossos desesperos e
vexames no Bungee Jumping, e mais tantas outras engraçadas, abri meu coração
como jamais havia feito; com a urgência daquelas que finalmente encontram o
amor e desejam a eternidade, mas sabem que o tempo é matéria-prima escassa.
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