Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 210

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 sabia estar ali suspensa no espaço. Mas, por estar vivendo certo delírio, não me apercebi da proximidade do fim de tudo: o drástico choque com o chão. A vida já não existia mais em mim. Foi neste instantâneo que me dei conta, pelo impacto do fim da corda elástica, e o respectivo repuxo. A sensação do vento a golpear, açoitando o corpo, despertando-me violentamente do transe ao qual estava mergulhada. Os impulsos para cima e para baixo simultaneamente deixaram-me desnorteada, impedindo-me de raciocinar de vivo juízo o recobramento dos sentidos. Não tinha eu mais condições nem de olhar para o céu. Então pedi para minha amiga/irmã que me deixasse só. Queria eu refletir um pouco, desanuviar a mente. Estava aborrecida. Após muita relutância por parte da mana consegui ficar a sós comigo mesma. Precisava de um lugar onde pudesse me restabelecer de tão assombroso susto. Queria sair dali, assim como a escuridão tem urgência em fugir da luz. A intenção era me encontrar com Deus em qualquer de suas formas e onde quer que estivesse. Tomei um táxi. Já era meio da tarde e mais uma grande tempestade se anunciava. Pesadas nuvens estavam formadas. Pedi para o taxista parar, desci numa praça qualquer. Girei o olhar em torno. “Era o que me faltava, depois de viver as aflições no ar, agora morrer afogada numa enchente!” – disse eu para os meus botões. – Pesadas gotas de chuva se precipitavam. Corri para me amparar sob o toldo de um quiosque; esbarrando em um rapaz também todo encharcado de chuva, deixando-me toda sem jeito, quando certo desespero tomou conta de mim ao tentar me desculpar com as palavras um tanto atabalhoadamente o inglês, o portunhol e, por fim o português mesmo. — Chuvinha chata, hein? – disse-me ele, aproximando-se de mim, fazendo- se gentil. Que grata surpresa, era um brasileiro. E eu pensando, não está ele me compreendendo. O que deixou a cena bastante engraçada. — Pois é… O dia estava tão bom. Agora essa tempestade... Bem na hora de ir embora... – disse eu tentando ser simpática. — Bom, pra mim o dia só ficou bonito agora… – disse ele todo sem jeito também. Só nesse instante percebi sua fala de fato! Então o olhei fixamente, cruzei os braços, e num semblante de espanto indaguei: — Ops! Você também é brasileiro?... — Sim sou brasileiro, algum mal nisso? Por um instante meu sangue congelou nas veias ao ouvir aquela melodiosa voz de meio espanto e meio engraçada. Sorri e disse: — Não, claro que não... Ei, eu também sou brasileira!... [207]