Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 209

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 neurótica. Atentava eu, para o dia que me esperava como se pressentisse a ventura, e ou, desventuras que a mim se destinavam. Pelas veias circulavam meu sangue em desarmonia. Embora ainda muito confiante e predisposta para a empreitada que minha irmã havia me infligido. O elevador demorando mais do que devia. Não fazia sentido aquela demora. Queria não pensar em nada. Mas de nada adiantava. A mente logo começou a conjecturar insólitas situações. – haveria ali, no setuagésimo oitavo andar um ambulatório para atender os saltadores do Bungee Jumping, que passem mal? – Eu mesma respondia que sim, era bem possível. Fechei os olhos por um instante reabrindo-os em seguida. A fila crescia e ninguém reclamava da demora. Um homem a minha frente, de pescoço grosso e cabeça redonda, lia o jornal calmamente. Não estava minimamente preocupado. Não quis eu olhar mais a luzinha dos andares, jurava que agora o elevador vinha descendo. Porém não havia nenhum ruído de sua aproximação. Foi num lapso de tempo que acordei desse transe medonho. Um estalo e a porta do elevador se abriu no térreo. Entrei como quem caminha para câmara de gás, agarrando-me às paredes de vidro. Ao desembarcar no topo a deslumbrante vista premiava toda a expectativa e desabonava o vexame vivido. De onde pude ver grande parte da moderna paisagem de Macau. Numa simbiose arquitetônica de arranha-céus cercados por rios e baías. Ao fundo o oceano Pacífico. Lá embaixo os cenários se misturavam entre o novo e o antigo iludindo o início, onde começa isso ou aquilo. Dirigindo-me para a plataforma de preparação para o salto, o coração, a cada segundo descompassava sua arritmia. A falta de regularidade e do ritmo era uma constância. Creio que os suicidas ao encostar à pistola na fronte sentem o mesmo pânico que eu senti naquele instante. O que iria acontecer em seguida? Os olhos acinzentaram-se e todo o corpo amarelou. Aos pés o abismo. Logo no impulso alvoroçado da queda ao ver a imensidão de mundo que se descortinava a minha frente, e o uivar do vento, vejo ao meu lado, flutuando destemidamente, livre e esvoaçante, a própria morte! Paralisada, desferi uma frase um tanto inconsciente para ela, pois veio a mente a lembrança do espetáculo teatral da noite anterior. Quando falavam da morte da geometria, da morte das hipóteses e a morte da própria morte. Dentro de um cenário de labirintos sem nexus nem plexus. Então no mesmo impulso a cumprimentei com um sonoro: — Oiii!... Dona morte!... – e ela respondeu indagando: — O que você faz aqui? — Estou treinando para morrer. E a senhora? — Ora, você já deveria estar ciente. Eu sou a própria morte!... Pelo jeito a morte também não queria morrer, pois estava cheia de asas. O resto foi tudo silêncio. Desde o céu até o asfalto. Os hormônios se diluindo na corrente sanguínea... As pernas estavam rígidas, o fluxo de pensamentos... Eu [206]