LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Paulo Luís Ferreira
São Bernardo do Campo/SP
O Saxofone Azul
“Deus me deu um amor no tempo de madureza,
Quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus ou foi talvez o Diabo deu-me este amor maduro,
E a um e outro agradeço, pois que tenho um amor...
(Carlos. Drummond de Andrade)
A princípio, posso parecer idiossincrática, pouco circunspecta e um tanto
ensimesmada. Entretanto, eu me definiria como uma destemida. E ser
destemida, a meu ver, é alguém que busca o improvável. Não necessariamente o
impossível, mas aquela que acha ser a vida uma aventura com a dimensão dos
sonhos. A que busca os extremos dentro de si. A considerar ser este prenúncio
apenas uma forma de insinuar e ao mesmo tempo expor os acontecidos comigo
naquelas Férias de Natal. E para que as pessoas não se surpreendam com meus
melindres, porque aqueles dias foram para mim como um rio, cujas águas
serviram de divisora para a história de minha vida. Naquela época estava eu a
digerir sobre um desnamoro recente. Quando fui convidada para uma viagem, no
mínimo onírica, por assim dizer.
Minha irmã, por motivos profissionais, havia se mudado de Paris para
Macau. Estava me convidando para visitá-la. O que não estava no roteiro era o
que eu iria encontrar logo ao desembarcar no aeroporto. Duas surpresas: a
primeira: caía um temporal, cuja perturbação atmosférica violenta, disseram ser
sem precedente. A segunda: já em companhia de minha irmã, logo após os
primeiros beijos e abraços repletos de saudades e emoção, no saguão do
aeroporto, me surpreende com seu inusitado convite em forma de desafio, saltar
do Bungee Jumping. – tido como o mais alto do mundo – Poxa! Logo eu que
nunca saltara do primeiro trampolim das piscinas que frequentei e, quando
criança, tinha medo de pular até do beliche!
À noite assistimos a uma belíssima peça de teatro. Apesar de macabra,
porque só falava de morte. Contudo, muito me impressionou, visto a velocidade
e a perfeição da performance e metamorfoses dos atores. Em instantes eles
trocavam de roupa, peruca e maquiagem, encarnando novos personagens; outra
voz, outra personalidade; e tudo com um vigor que só podia existir mesmo no
palco.
Enfim, o domingo ensolarado de céu retinto de azul e nuvens em lã de
carneiro. Um belíssimo dia oriental. Milhares de turistas zanzando por entre os
modernos prédios dos hotéis e cassinos de Macau; entrelaçando-se por entre os
templos chineses e igrejas portuguesas. A exibir contrastes de épocas e culturas.
Logo pela manhã começaria meu suplício: a espera pelo quase supersônico
elevador que iria nos elevar a grande torre do Bungee Jumping. Estávamos na
fila quando dei acordo da minha pessoa e sentir pelo corpo uma gélida euforia
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