LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Marcus Deminco
Salvador/BA
Brigando Com Deus
Ainda que infrutuosas convicções incitem o meu mísero direito de gente, eu
não exigirei mais de Deus todas as explicações que me foram subtraídas – desde
quando fui arrancado do calmoso útero que me resguardava ainda cândido – e
arremessado, inexoravelmente, ao labirinto ilógico desse fadário universo de
venturas. E como o esporo de uma semente não plantada – dentro dos jardins
mais inférteis da incerteza – eu já eclodi carregando o peso penoso da
indesejável incoerência que veio pregada comigo.
Eu sou sem pedir para ser. Como um gerúndio reticenciado do acaso,
funambulando descalçado e sem destino, com a razão ignorada que herdei. Eu
sou um sujeito assim... Aleatoriamente à toa. Sem motivo algum para ser. Pois,
se o tenho não conheço, e ao desconhecê-lo torno-me um estranho insignificante
de mim mesmo. E, submisso à passiva incapacidade de prever a minha própria
sina, sem mapas, bússolas, epítomes... Nem qualquer outra forma de orientação,
eu sigo buscando desatinadamente o meu tino. Mesmo sem saber se o tenho.
As trouxas de sonhos que carrego comigo, são subordinadas às vontades que
não são minhas. Sou impotente, oco e não carrego, sequer, a minha própria
identidade. Sou escravo de uma entidade onipresente que jamais encontrei,
curvado aos intermitentes equívocos da sua soberana onisciência que – nem ao
menos – posso contestar.
O meu destino vestia-se de casualidades intempestivas, somente para
ludibriar-me de que as minhas atitudes mudariam o curso do meu futuro. No
entanto, a verdade é que todos os meus porvires, nunca foram nada, exceto
parte da inepta premência humana de acreditar que as consequências das
minhas decisões me tornaria dono dos meus próprios desígnios. Inobstante,
deixando de lado a crença dos desesperados que, por defesa vital nos
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