LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Às vezes, levávamos ovos para as tias da cantina fazerem farofa. Não havia
pratos, comíamos em copos de plástico que nós mesmos doávamos no início do
ano letivo. Aí, comecei a gostar do feijão, que já vinha em caroços e com farinha.
Tinha o arroz-doce, mas não compreendia por que não faziam como o da minha
mãe, tão gostoso. Depois, fui cursar o ensino médio no centro da cidade, num
colégio particular, e a merenda acabou. Tínhamos que comprar nosso próprio
lanche na cantina. Acabou o feijão, acabou o arroz-doce, acabou o mingau... era
refrigerante, salgados, guloseimas... Do ensino médio para a graduação na
Universidade e assim continuou, sem merendeiras e sem merendas...
O professor saiu da sala e foi para o seu intervalo. Na sala dos professores, o
feijão aguardava. Por incrível que pareça também tinha fila para se servir.
Quando chegou sua vez, ele colocou algumas colheres em seu prato e comeu sua
merenda. Não só entendeu os alunos, como também se mergulhou naquele seu
tempo de recreação, perdido na memória. Aquele feijão tão disputado era mais
que um alimento. Era um gosto de saudade tão boa. No pátio, os alunos riam e
se fartavam de uma boa merenda. É sabido que não é assim para todos. Há
escolas em que copos d’águas saciam mais que sedes.
E assim, o feijão reina plenamente. Não há suco e bolacha doce, achocolatado,
iogurte, vitamina de banana, arroz com molho de salsicha, que supere o feijão.
Pode, sim, haver outras preferências, mas o único a disparar carreiras, sem
dúvida, é o feijão. Hoje é feijão! Hoje é feijão!
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