Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 184

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Márcio Adriano Moraes Montes Claros/MG Hoje é feijão Atenção, meninos! Para a próxima aula, vocês deverão fazer uma redação dissertativa sobre o tema... Beeeeemmmmm... e cadeiras se atrapalham, carteiras se empurram, a porta se torna estreita, e “pernas pra que te quero”... assustado, o professor se encolhe no canto, rente ao quadro: “o que foi... o que foi, gente,... o que tá acontecendo?” “É feijão, professor, é feijão...” Faz tanto tempo... Lembro-me da primeira vez que minha mãe me deixou, sozinho, na porta do Rabicó, um jardim de infância do bairro vizinho. Eu não queria ficar. Acredito que toda criança não queira ficar, pelo menos, de imediato. Aí ela teve de conversar comigo. A diretora me chamou, e eu conheci a minha primeira tia. Ela era tão bonita. Todas as tias do jardim de infância devem ser bonitas. Fiquei. Os outros dias se seguiram, comigo ficando. Conheci os coleguinhas e as coleguinhas. E, naquele universo infantil, já senti meus primeiros conflitos, qual delas seria minha namoradinha? Pensei que me casaria com a tia, muitos queriam se casar com ela, ainda que ela fosse casada. Não entendíamos isso. E coloríamos, e escrevíamos, e líamos, e brincávamos... ah, o escorregador... “não me deixa cair...” “não, não deixarei...” e segurava a mão dela como um herói... e merendávamos... Levávamos a nossa merenda. Era mágico quando o sinal tocava e sentávamos todos juntos e abríamos as merendeiras. Eu tinha uma do Rambo... Às vezes, trocávamos as guloseimas, os lanches, as frutas e até as bebidas, suco, leite com Toddy... Depois, a vida nos reserva surpresas e, quando não nos damos conta, crescemos. Tive outras tias, mas nenhuma tão bela quanto a que me apresentou o bê-á-bá. Parei de levar minha merendeira e passei a comer a merenda da escola. Gostava quando era mingau. Tinha um arroz estranho que também era bom. Do feijão, eu não gostava, pois ele vinha amassado, tipo tutu. Depois, deixei o Rabicó, que já tinha mudado de nome, e fui para, a escolinha do meu bairro, fiz uma rápida passagem pelo Helena, depois voltei à escolinha que recebera o nome de Dilma Quadros. E continuei comendo a merenda da escola. [181]