Revista LiteraLivre 17ª edição | Seite 181

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Marcelo Kassab São Paulo/SP Sob Ipês e Flamboyants Andar por ali era como caminhar sobre o tempo. Ipês e flamboyants protegiam os jardins regados por lágrimas e saudade, repletos de flores que coloriam e amenizavam o luto. A cada passo, os ponteiros do relógio retrocediam, levando-o em viagem para lápides cujos epitáfios, registravam os séculos mortos. Observava nomes, datas e imaginava as histórias de vida de cada viajante; emocionava-se. Percorreu um longo caminho junto ao cortejo, agarrado à alça do féretro. Distraía- se com as feições pálidas e ocultadas pelo escuro dos óculos, que vez ou outra cediam seus lugares aos lenços de seda. Finalmente, chegou à última quadra, ao último túmulo. Passou pelas pessoas sem que fosse notado; ouviu as derradeiras palavras do padre e não conteve o pranto. Sem óculos ou lenços para disfarçar sua tristeza, dos olhos vermelhos sentiu chegar à boca o gosto salgado da despedida. Ao final da cerimônia, quando todos se retiravam, aproximou-se do jazigo para uma última homenagem. Depositou uma rosa sobre o seu nome e se deitou, buscando aconchego entre as coroas de flores. As horas morriam em meio ao chamado para a eternidade. [178]