Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 171

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Luzia Stocco Piracicaba/SP O Pé Grande e o Azulão – O Pé Grande morreu! O Pé Grande morreu! – gritava uma garotinha correndo na rua. Ele, o morto, o Pé Grande, não podia acreditar que haviam aberto a portinhola da gaiola e, seu azulão, tão amado, escapara. Mas de que adiantava lembrar-se disso agora?! O cortejo prosseguia. Carroças, charretes, muitos a pé, seguiam em direção ao centro da Vila Bota Grande. Ninguém ia a sua frente. Pela primeira vez todos estavam atrás dele – até a esposa do prefeitinho Batias. Pezão era o primeiro – prioridade de morto – atentou ele. E, além de soltarem seu pássaro, jogaram fora sua única garrafa de pinga. Agora, continuava com sua meia furada, tão velha. Pediu, na Hora H, que o preparassem para o enterro com a mesma meia, a única que lhe cabia. Pé Grande, filho de coronel falido, também falido, temido pela fama dos pés. No passado, até arqueólogos renomados confundiram-se com o dito achado de marcas ressecadas dos seus passos no solo. Então fizeram um ágil pedido para concessão daquele sítio arqueológico seguido de frustração dos estudiosos. Sua vida social e religiosa era limitada, pois lá se vedavam a entrada de pessoas descalças nos recintos, ainda mais um senhor descalço. Artífice algum acertava as medidas de uma botina ou de um chinelo que fosse. Às vezes, arrastava um chinelão por onde ia, expondo o calcanhar ao léu, mas o problema foi mesmo a unha encravada! Quem se prontificava a desencravá-la? Até o nome do vilarejo lhe cabia. Por ironia: Bota Grande. “Para a unha encravada o bom é jogar álcool temperado com ervas e sal grosso, ou, pinga! Mas qual?!? A minha esposa jogara fora a garrafa e, provavelmente, meu pássaro Azulão escapulira por suas mãos atrevidas também”, matutava Pé Grande. [168]