LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019
Alguns jovens o chamavam de "o patinador". O vizinho espanhol o chamara
numa ocasião para matar, à patada, uma cobra em sua cozinha. Ele não foi. “Que
se salvem as cobras, oras bolas!” Pé Grande tinha outra identidade: Agenor. E um
sobrenome bem propício: Sola Quente. As trilhas de saúvas fugiam dele, mas
quantas delas foram dizimadas por uma só pisada, no meio do mato ou na
estrada, e olhe que ele tinha boa visão! Porém, lembre-se, cara leitora e leitor,
ele não era um gigante, apesar dos pés.
Agora no final, o cortejo fúnebre aumentava. Todos se espremiam para
espiar sua expressão, quer dizer, a posição dos ditos cujos – rijos, brancos, com
meias rasgadas, sobressalentes para fora do caixão. Uma fotógrafa destemida
pediu à família para fotografar os pés sem as meias – Pé Grande não tivera
tempo de cerzi-las – A tal fotógrafa queria uma foto exclusiva. A família pequena:
esposa, irmão, irmã, uma sobrinha, um sobrinho e o velho Azulão (que voltara
para despedir-se, tinha-o desde a mocidade) não deram permissão; aí já era
expor demais o pobre homem.
Algumas crianças choravam vendo alguns adultos chorando sobre o caixão.
Alguns jovens choravam, pois sentiriam falta da única atração da Vila; velhos
já se entristeciam pelo vácuo no
banco sob as mangueiras da pracinha, onde ele era o protagonista dos bate-
papos. A jovem sobrinha não fora ao cortejo por vergonha do tio, e nem era tão
dada com ele. Um dia, há tempo, ele chutou a bunda dela por brincadeira e
imaginem onde ela foi parar.
Ainda não acabara o enterro e alguns, os mais ansiosos, já almejavam uma
nova distração, algo diferente para a região. Por que o singular, o diferente,
incomoda? Somos todos singulares, mas a noção de alteridade passa longe.
Ao fechar-se o caixão um vulto infundiu-se junto ao corpo inerte: "se estive
preso engaiolado a vida toda de que me serve a liberdade agora que sou velho? É
que nem aquela velha lei humana, a dos Sexagenários, que em 1871 o Império
libertou os escravos acima dos sessenta anos livrando os fazendeiros da carga
desses velhos, colocados ao relento, se chegassem vivos até aí!! Piada de mau
gosto, isso sim! Comigo a coisa é diferente.
– Não quero morrer sozinho e abandonado, vou com o Pé Grande – decidiu
o pássaro. Ninguém suspeitou. De repente, a janela do caixão, semifechada
devido a curta envergadura dos pés começou a tremer. Abriram assustados e
nada. De novo e de novo! Jogaram o caixão no buraco e todos correram
desesperados. O pássaro bicava os pés do amigo, que sempre teve excessiva
cócega e aquele nunca soube, e se remexia. Era o último agrado, a despedida.
Deitou-se com as asas bem acomodadas, no bolso do paletó e esperou, esperou.
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