Revista LiteraLivre 17ª edição | Page 172

LiteraLivre Vl. 3 - nº 17 – Set./Out. de 2019 Alguns jovens o chamavam de "o patinador". O vizinho espanhol o chamara numa ocasião para matar, à patada, uma cobra em sua cozinha. Ele não foi. “Que se salvem as cobras, oras bolas!” Pé Grande tinha outra identidade: Agenor. E um sobrenome bem propício: Sola Quente. As trilhas de saúvas fugiam dele, mas quantas delas foram dizimadas por uma só pisada, no meio do mato ou na estrada, e olhe que ele tinha boa visão! Porém, lembre-se, cara leitora e leitor, ele não era um gigante, apesar dos pés. Agora no final, o cortejo fúnebre aumentava. Todos se espremiam para espiar sua expressão, quer dizer, a posição dos ditos cujos – rijos, brancos, com meias rasgadas, sobressalentes para fora do caixão. Uma fotógrafa destemida pediu à família para fotografar os pés sem as meias – Pé Grande não tivera tempo de cerzi-las – A tal fotógrafa queria uma foto exclusiva. A família pequena: esposa, irmão, irmã, uma sobrinha, um sobrinho e o velho Azulão (que voltara para despedir-se, tinha-o desde a mocidade) não deram permissão; aí já era expor demais o pobre homem. Algumas crianças choravam vendo alguns adultos chorando sobre o caixão. Alguns jovens choravam, pois sentiriam falta da única atração da Vila; velhos já se entristeciam pelo vácuo no banco sob as mangueiras da pracinha, onde ele era o protagonista dos bate- papos. A jovem sobrinha não fora ao cortejo por vergonha do tio, e nem era tão dada com ele. Um dia, há tempo, ele chutou a bunda dela por brincadeira e imaginem onde ela foi parar. Ainda não acabara o enterro e alguns, os mais ansiosos, já almejavam uma nova distração, algo diferente para a região. Por que o singular, o diferente, incomoda? Somos todos singulares, mas a noção de alteridade passa longe. Ao fechar-se o caixão um vulto infundiu-se junto ao corpo inerte: "se estive preso engaiolado a vida toda de que me serve a liberdade agora que sou velho? É que nem aquela velha lei humana, a dos Sexagenários, que em 1871 o Império libertou os escravos acima dos sessenta anos livrando os fazendeiros da carga desses velhos, colocados ao relento, se chegassem vivos até aí!! Piada de mau gosto, isso sim! Comigo a coisa é diferente. – Não quero morrer sozinho e abandonado, vou com o Pé Grande – decidiu o pássaro. Ninguém suspeitou. De repente, a janela do caixão, semifechada devido a curta envergadura dos pés começou a tremer. Abriram assustados e nada. De novo e de novo! Jogaram o caixão no buraco e todos correram desesperados. O pássaro bicava os pés do amigo, que sempre teve excessiva cócega e aquele nunca soube, e se remexia. Era o último agrado, a despedida. Deitou-se com as asas bem acomodadas, no bolso do paletó e esperou, esperou. https://www.facebook.com/lustoccoliterata/ Contato: lupoemas12@gmail.com// [169]